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quarta-feira, 10 de junho de 2015

POEMA PARA COLORIR



Poema para colorir



Inspirado por esta verdadeira tsunami de publicações para colorir, destinada ao público adulto, em que, geralmente, não há uma palavra sequer, além daquelas dispostas na capa e contracapa, resolvi escrever um poema que falasse, principalmente, daqueles momentos em que a vida transcorre em preto e branco, mas que são excelentes oportunidades de colorização.

A Leila, que leciona Arte,  abraçou a ideia e distribuiu entre seus alunos do ensino fundamental (5º ao 9º anos), cópias do poema para leitura, reflexão e prática de pintura.

Os trabalhos integrarão os portfólios de cada aluno, que serão expostos ao final do curso, juntamente com as demais atividades desenvolvidas pelas turmas.

Outras cópias foram distribuídas a crianças de nosso convívio. Duas delas mostraram o poema a suas professoras de português, que também irão distribuí-las, por sua própria iniciativa, entre seus alunos.

Hoje, pelo menos 500 cópias já foram distribuídas, o que é motivo de alegria.

Abaixo, disponibilizo o poema para cópia e colorização livres e espero, sinceramente, que ele possa colorir os seus momentos.


(Sérgio Ferreira da Silva)



Clique na imagem para ampliar ou imprimir.
















terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A Aurora e o Poente, de Heloísa Zanconato & José Fabiano

 
 
 
Lançado em 2001, o livro "A Aurora e o Poente - Versos Líricos" traz sonetos e trovas dos poetas mineiros Heloísa Zanconato e José Fabiano, em parceria anterior àquela da postagem anterior, com José Ouverney.
 
O meu destaque, desta vez, vai para dois sonetos, um de cada autor, que, de certa forma, "dessacralizam", primeiramente, a figura do fazer poético, negando a aura da inspiração e da sensibilidade pura como forças motrizes do poeta. Num segundo momento, o foco está nos próprios sentimentos "motivadores", digamos assim, do poeta.
 
 
Novamente, chamo a atenção do leitor para a construção de ambos os sonetos. Ambos têm detalhes que os fazem figurar, pelo menos em minha estante, como poemas especiais, pela diferenciação dos temas  e, principalmente, da retórica envolvida. Vamos a eles...
 
 
SONETO
 
Quando a tristeza me arrebata o pranto
ou a alegria, o coração, me assalta,
busco na rima o aprimorado encanto
que, às vezes, sobra em tudo o que me falta...
 
Não é preciso a proteção de um Santo,
nem mesmo a voz da inspiração mais alta;
tampouco, as notas magistraiss de um canto
ou o esplendor das luzes da ribalta...
 
Basta uma folha em branco... e um pena
e a alma transborda, de venturas, plena,
do primo verso ao último terceto...
 
E após o parto... e alcançada a meta,
sente-se um Semideus, este poeta
que deu a luz a um clássico SONETO!
 
(Heloísa Zanconato)
 
 
A elaboração de qualquer texto, ou de um poema em especial, pressupõe uma relação existente de emissão e recepção de uma mensagem, de utilização e comprensão de signos.
 
Não há poeta que não idealize seu leitor, seja ele um outro poeta, ou um interessado, cultor da poesia. De outra parte, tão ou mais idealizado ainda é o poeta, na concepção do leitor.
 
O leitor sempre espera que o poeta escancare sua alma, desnude-se perante a plateia muda e dispersa. Se amou, ou se perdeu seu amor; se venceu, ou foi derrotado. Tudo deve estar no papel.
 
Porém, um poeta que foi muitos outros, Fernando Pessoa, quebrou estas expectativas recíprocas, ao escrever que "O poeta é um fingidor".
 
Mas este "fingidor" não é sinônimo de mentiroso ou falso. A palavra fingidor nasce no latim (fingo, fictum, fingere), no sentido de "moldar o barro". Então, o poeta não mente, molda. Toma uma massa disforme, o barro das sensações e o transforma em um conceito, em uma sensação primeiro pensada, trabalhada, moldada, entendida e, talvez, depois, sentida.  
 
É exatamente isto que Heloísa dispõe em seu SONETO: no primeiro quarteto, ela relaciona alguns prováveis elementos motivadores de sua poesia, sua massa disforme (tristeza, pranto, alegria, rima); no segundo, elimina todas as possibilidades de influências mágicas, espirituais, artísticas e estéticas, para dizer que, o que a impulsiona é a razão.
 
No primeiro terceto, reduz toda a elaboração do poema às questões materiais: um papel em branco, algo para grafá-lo e, num verdadeiro impulso criativo, ela escreve "do primo verso ao último terceto".
 
No segundo terceto, então, desincumbida do árduo trabalho criativo, o poema, aí sim, é sacralizado (semideus) e ganha vida (parto). Espírito e matéria são o próprio soneto.
 
Três observações finais sobre este soneto: 1) seu nome é SONETO, ou seja o nome da própria forma lírica adotada; 2) É um poema metalinguístico, ou seja, em si mesmo discute a própria criação literária e a produção do poema; e 3) o emprego magistral da circularidade, vez que SONETO é a primeira e a última palavra utilizada no soneto! Outro detalhe da circularidade é o estabelecimento de um ambiente fechado, que ao mesmo tempo é restrito e infinito. Marca de gênio e de talento.
 
Não é por menos que Heloísa é considerada, e com justiça, uma das grandes sonetistas da atualidade. Essa foi a Aurora.
 
Nosso amigo Poente não deixa por menos...
 
O LIXO
 
Pela manhã de certos dias, passa
o caminhão de lixo em minha porta
e para longe, rápido, transporta
aquilo que, imprestável, me embaraça.
 
Vai carregando como coisa morta
de serventia para mim escassa,
mimos onde antes via brilho e graça,
cujo destino já não mais importa.
 
As ilusões e sonhos juvenis
de que seria célebre e feliz
conservei longos anos, por capricho.
 
Ante a verdade da fatal velhice,
hoje os desprezo, como se pedisse
que a vida me liberte deste lixo...
 
(José Fabiano)
 
 
José Fabiano constrói seu soneto negando, aparentemente, a própria condição de texto poético.
 
Os dois quartetos iniciais remetem ao gênero crônica. A relação autor/leitor dá-se pela proximidade fixada entre as pessoas reais envolvidas (poeta e leitor) e não nos seus papéis no estabelecimento do vínculo da linguagem (emissor e receptor). Explico: autor e leitor são pessoas que moram em lugares onde, em dias pré-determinados da semana passa um caminhão de lixo, que leva o lixo, ou seja, tudo aquilo que não tem mais serventia, ou estragou: tudo o que seletivamente descartamos de nossas vidas, materialmente falando (técnica invariavelmente utilizada pelos cronistas, que costumam chamar a atenção do leitor para aspectos comuns do cotidiano de ambos).
 
Primeiro ponto em comum entre os dois autores, Aurora e Poente: o estabelecimento de parâmetros materiais de comparação para falar de sentimentos. Claro que o ato de moldar o sentimento a partir da reunião de elementos e organização da massa disforme, em Fabiano, passa, primeiro, pelo estabelecimento desse elo identitário com o leitor.
 
Disposto o conceito e pressupondo que ele corresponda à verdade literária que o autor estabelece, nos tercetos finais José Fabiano arremata brilhantemente seu soneto, ao dizer que as ilusões e sonhos (imateriais) que não conseguiu concretizar (tornar matéria) são como o lixo ao qual ele fez menção no início e dele merecem apenas o desprezo, embora deles não esteja liberto.
 
Ora, a visão romântica do poeta que vive de sonho, é quebrada pelo próprio poeta. Não há esperança. O tempo passou e aquilo que era meta, ou anseio, perdeu-se no tempo. Mas continuam preservados "por capricho".
 
Dessa forma, em Fabiano, a dessacralização é a de si mesmo, enquanto autor, enquanto poeta. Mas sua negação, antes de produzir este efeito (com a eliminação do sonho e da ilusão), é, mais, uma afirmação da mantença da esperança, porque feita poeticamente, em forma de soneto.
 
A metalinguagem, em "O lixo" é subentendida. Permeia todo o soneto, mesmo os quartetos, pela adjetivação positiva emprestada ao lixo, propriamente dito (mimos, brilho, graça).
 
Por fim, também neste segundo soneto a circularidade fica estabelecida porque a palavra "lixo" é repetida no início e no encerramento do soneto. Coisas de quem sabe o que faz!
 
Não abordei propositadamente as questões mais comesinhas da arte poética, como rima, ritmo, emprego de pausas e do campo semântico, visto que procurei chamar a atenção para aspectos que, geralmente são mais "sentidos" do que vistos.
 
Faço ressalvas às minhas próprias análises: além de serem pontuais, no emprego da técnica do recorte, são, também, leituras como quaisquer outras. Li, gostei e comentei da melhor maneira que pude, para torná-las mais palatáveis, bem entendido, aqui, que o problema está na leitura, que é  sempre parcial, sectária, por depender, sempre, dos paralelos estabelecidos pelo "postador". Os poemas, estes sim, devem ser lidos/relidos e você, leitor idealizado/idealizador, deve trazer novas conclusões à luz.
 
Além disto, os poemas estão publicados e existem independentemente da leitura que deles se faça, seja ela profunda, rasa, ou em nível acadêmico. Importam mais como arte e expressão literária. Permanecerão.
 
Sobre os dois poetas abordados, José Fabiano, um mestre dos encontros e Heloísa, tenho a dizer, apenas, que desde que comecei seriamente a pensar a poesia tenho por eles um carinho muito especial. Heloísa Zanconato, em meus primeiros anos na trova, antecipou algumas conquistas futuras, e indicou caminhos preciosos. Só tenho a agradecer e render-lhe este singelo mimo, em forma de postagem.
 
 
 
 
 
 
  




sábado, 2 de fevereiro de 2013

Os "Sóis e Orvalhos", de Edmar Japiassu Maia

 



Sóis e orvalhos, de Edmar Japiassú Maia, foi publicado em 1996. A capa é de Frederico Ferreira Lima Neto e o prefácio de Sérgio Bernardo. Não preciso falar mais nada. Pronto, acabei a postagem. Não, não! É brincadeira.
 
Um poeta da grandeza de Edmar merece um prefácio do também destacado Sérgio Bernardo! E a prefação começa assim...
 
"Há muitas pessoas vivendo em estado de graça com a Poesia, amigo Drummond. Uma delas está no velho Estácio..."

E, mais adiante: "...Ali maneja a sua máquina criadora, e dali espalha aos quatro ventos o produto do seu labor diário: versos que nascem com o destino das asas, qual seja o de ascender... subir cada vez mais alto, e mais alto... até confundirem-se com o próprio sol, tamanha a sua luminosidade..."

Além de outras observações que beiram e transcendem a prosa poética, Bernardo arremata seu pensamento, ressaltando a qualidade da escrita do amigo...

"Um texto autêntico, que, faça-se justiça, parece vir pronto da alma para o papel."

Eu posso dizer mais sobre Edmar, mas não com o conhecimento de causa de Sérgio Bernardo. Posso dizer que nos meus primeiros contatos com a trova, Antonio de Oliveira, ao disponibilizar alguns de seus livros para leitura, chamou minha atenção para as trovas de Edmar, como exemplos a serem seguidos. Tarefa impossível, já que o grande trovador burila seu texto e promove a ampliação dos sentidos de um vocábulo com tanta facilidade que a nós, os mortais, só é possível admirá-lo. Digo mais: algumas das conversas que tive com Edmar tornaram possível meu aprimoramento e me indicaram alguns caminhos preciosos na escrita das trovas.

Vamos, então à transcrição de alguns trechos do verdadeiro pote de ouro que é o livro Sóis e Orvalhos, começando por um soneto...

 
CICLO VITAL
 
Sentado à beira da árvore frondosa
embalançada pelo vento ameno,
vejo cair, bailando sinuosa,
a folha ressecada no terreno...
 
À minha frente, inerte, o ser pequeno
repousa sobre a terra, tão bondosa,
que acompanhou seu crescimento pleno
e hoje o sepulta triste e caridosa...
 
Assim nós somos, entre sóis e orvalhos,
o retrato das folhas que, dos galhos,
desprendem-se na queda inconsequente...
 
E igual a simples folha ressequida,
guardamos os resquícios de uma vida,
para a eclosão de vidas... mais à frente!
 
(Edmar Japíassú Maia)
 
 
 
Na postagem anterior, onde discuti um soneto de Octávio Venturelli, procurei chamar a atenção para a técnica retórica do soneto em que um argumento é trazido, reforçado e a conclusão caminha para a apoteose do último verso, a chave de ouro.
 
A genialidade de Edmar neste soneto, especificamente, está no fato de que o argumento principal, que é desenvolvido ao longo dos quartetos, é preparado no primeiro terceto e só é revelado no terceto final. Fantástico!
 
Isto prova porque o soneto perpetua-se entre nós há sete séculos, pelo menos. E a escolha que fiz deste soneto em especial, se deve ao fato de que foi de um de seus versos que Edmar extraiu o título da obra.

A teoria literária conforma-se em algumas técnicas que possibilitam a análise de qualquer obra a partir do uso de paralelos que podem estar na biografia do autor, em sua localização geográfica e até na história geral e nos movimentos políticos e artísticos de sua época, por exemplo.

Não é isto que farei aqui, mesmo porque não tenho o distanciamento aconselhável do autor. Mas, posso dizer que este soneto é um daqueles que serão apreciados ao longo dos tempos, "mais à frente", como escreveu Edmar.

É uma lição de vida e sobre a vida, da efemeridade e, ao mesmo tempo, da perpetuação dela. É o que me diz o verso "Assim somos nós, entre sóis e orvalhos". Temos, em essência, o mesmo destino das folhas, entre os sóis e orvalhos, os dias e as noites: somos efêmeros, mas, ao mesmo tempo, deixamos um legado. No caso de poetas iluminados como Edmar, um legado de poesia, de uso além dos limites dos sentidos das palavras, usando os registros cotidianos como pano de fundo para a lapidação do texto. Notem que há um ar de crônica no soneto, ou seja, um registro temporal. Sua temática poderia, muito bem ser desenvolvida em prosa, nas páginas de um jornal diário, mas é perfeita como poesia, como soneto.

O livro de Edmar divide-se em capítulos. O primeiro, de onde extraí o soneto acima é GESTAÇÃO. Há mais capítulos, que trarei aqui em uma próxima postagem. No capítulo II, RODA VIVAEdmar traz poesias clássicas. Entre elas, destaco um trecho de...

"SAUDADE, MINHA SAUDADE...
 
 
...Minha saudade aporta em qualquer porto,
desde que exista amor em suas águas;
e a imensa carga de seu desconforto
é feita de tristezas e de mágoas.
 
Mas nem assim minha saudade enxerga
a luz brilhante de um farol que pisca
para avisar que amor a gente enverga,
e quem navega sem amor se arrisca.
 
Seu destino é singrar sem ter destino,
como singra um pirata noite e dia.
Não lhe importa se o sonho é pequenino,
ou se lhe falta a luz da estrela-guia..."


 
Ora, amigo/a, Edmar usa e abusa das metáforas, mas ele pode. É cônscio do poder e da força das figuras que emprega e é magistral na exploração dos sentidos dos vocábulos, como no verso "Seu destino é singrar sem ter destino". Um destino que ora é sina, outra é objetivo, daquele pirata que singra os mares "noite e dia". Olha aí o título do livro novamente: noite e dia, sóis e orvalhos!

A obra de Edmar é coerente em si mesma. Há um sentido, uma estética e, principalmente, uma poética própria, uma espécie de plano, neste poeta que residia no Estácio e que agora respira os ares e a poesia das montanhas na cidade de Nova Friburgo, a mesma onde reside o prefaciador. Terra que foi agraciada, após sofrer tanto, com o convívio diário com alguém que produz uma poesia que, segundo Bernardo, "...Tem brilho próprio, porquanto fruto de uma anímica vocação literária."

E eu, blogando, tenho sorte, muito mais do que muitos ensaístas e críticos literários, porque posso dizer diretamente ao autor: Obrigado, querido Edmar e sua benção dileto amigo!
 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Being Sérgio Bernardo


No filme "Quero ser John Malkovich", no original "Being John Malkovich", a personagem Craig Schwartz, vivida por John Cusack, após começar a trabalhar em um escritório que ocupa o 7° 1/2 andar de um edifício (aliás, aqui cabe uma observação: o andar tem metade do tamanho normal e as pessoas que nele trabalham, são obrigadas a andar curvadas, posto que o teto é baixo), encontra uma passagem secreta, que leva à mente do ator John Malkovich, onde pode permanecer por 15 minutos...

Depois de ler o livro "Asfalto" (lançado pelo selo OffFlip, em 2010), de Sérgio Bernardo, o leitor se vê tentado a, como insinua o título do filme em português, pensar: "Quero ser Sérgio Bernardo"!

Aliás, quem não gostaria de ter escrito...

"Seu sol de catadora,
luz encardida nas calçadas,
gira numa galaxia
de papelão e alumínio,

rendendo trocados
para a quentinha
comida fria
sobre a toalha do asfalto..."

(Cegueira, p. 17)

O título do filme, em inglês, como de praxe nas traduções de títulos de filmes no Brasil, é muito mais abrangente: (Being) "sendo" John Malkovich.

A parábola cinematográfica serve para ressaltar o talento e o estilo do autor.

"Asfalto" é um espetáculo poético, não no sentido festivo do termo, mas por sua grandiosidade, pela capacidade que o livro tem de fomentar, no espírito do leitor, uma profunda e angustiante reflexão sobre o sofrimento e a injustiça que acompanha aqueles que fazem do asfalto sua mesa de refeições, sua cama, sua sala de estar. Mas não é só isso: asfalto também fala dos seres que por ele transitam e que, no mais das vezes acostumaram-se com as imagens dantescas que ele lhes proporciona, como no poema Incompreensão (p. 31):

"Os bons às vezes caminham entre eles,
o céu já lhes foi prometido.
Eles porém ainda não entendem,
com pele cosida aos ossos,
não sabem de paraísos além
de galinha na canja
ou goiabada..."

"Asfalto" talvez seja um retrato poético da chamada "Banalização da Violência", primorosamente discutida por Hannah Arendt, ou seja, as condições precárias de nossa população de rua refletem a violência em estado puro, mantida e financiada pela autoridade do Estado e pela divisão das castas sociais. A vida dos não-sujeitos-de-direito não tem a mínima importância...

"A carne dele é uma sílaba
no conto da cidade,
esconde-se na fenda
de qualquer viaduto.

Um tiro que o atinja
não será ouvido
dentro da música
do dia..."

(Figurante, p. 26)

Ler "Asfalto" podendo ver a paisagem urbana através da visão e dos demais sentidos de Sérgio Bernardo, principalmente aquele sexto sentido tão comum aos poetas, não deve despertar a vontade "Quero ser Sérgio Bernardo". Caso o leitor esteja preparado para ver com os olhos da alma, "Asfalto" será o passaporte carimbado para que, criticamente, por quinze minutos que seja, o leitor deixe de ser o leitor (curvado sob um teto baixo, como os companheiros de trabalho de Cusack) e torne-se o próprio poeta, "being" Sérgio Bernardo!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Cronologia de um poeta - Primeiros Versos


De 20 a 22 de maio de 2011, ocorreram os 52°s. Jogos Florais de Nova Friburgo. No hotel em que fiquei, também hospedou-se o trovador Antonio Carlos Rodrigues, nascido e residente na cidade de São Gonçalo/RJ, onde recebeu a merecida honra de tornar-se membro da Academia de Letras local.

Antônio Carlos, generosamente, me brindou com seu livro “Primeiros versos”, obra que veio a lume como registro da trajetória poética do autor, em seus primeiros tempos de poesia, posto que ele sempre organizou seus escritos (o que costuma ser raro entre os poetas) em ordem cronológica. Faz metalinguagem ao escrever...


“...os meus primeiros versos são em mim
ainda hoje, como divinal herança.
Momentos que não saem da lembrança,
eterna e linda flor em meu jardim...”


Publicado pela editora Virtual Books, “Primeiros Versos” transborda talento e alma e sela um compromisso com sua musa inspiradora...


“...Já foste a inspiração dessa minha arte
mais pura, mais singela e em toda parte
alegraste a existência deste asceta.

Meu coração agora pede, acusa,
para que sejas sempre a minha musa,
pois serei para sempre este teu poeta...”


Os Jogos Florais deste ano, em Friburgo, marcaram o primeiro encontro dos trovadores locais com seus admiradores de todo o país. Foi um encontro de emoções sucessivas e intensas... Antônio Carlos Rodrigues, com sua sensibilidade ímpar, foi o protagonista do mais emocionante momento de todos os Jogos Florais, justamente em seus final, como vencedor do concurso realizado nos três dias de jogos, cujo tema foi, muito a propósito, RENASCER... Eis a trova que fecha esta postagem, uma verdadeira chave de ouro:

O amanhã revelará
o renascer desse povo:
Nova Friburgo será
Nova Friburgo de novo!

(Antonio Carlos Rodrigues)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Poemas para nunca mais


Este era um projeto antigo! Poesia livre, concreta, clássica, sonetos e trovas... A essência de minha produção poética de 1997 a 2010. É meu quarto livro pelo Clube de Autores, no qual pude me cercar das duas pessoas que mais me incentivaram durante todos estes anos na elaboração e publicação de meus textos: minha esposa, Leila Rodrigues (autora da capa "Liberdade", que é uma das obras de seu talento que mais gosto) e Antonio de Oliveira, amigo de infância e um dos grandes trovadores brasileiros, que assina o prefácio.

Para visualizar o livro no Clube de autores, clique aqui!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Poema para um olhar...












Por teus olhos

São olhos questionadores, os teus...
Olhos de quem sabe que é preciso
conhecer... adivinhar e, sobretudo, sentir...

Conhecer, no aprendizado diário
e no curto espaço de uma vida compartilhada;

Adivinhar, como se não fossem necessárias as palavras,
como se não fosse necessário dizer "eu te amo",
como se fosse possível não dizer "eu te amo",
mas adivinhar mesmo assim, e ficar feliz com isso;

E sentir... que as respostas que os teus olhos procuram
estão em ti... e em nós,
não pela complexa arte (quanta arte!) de viver,
mas pelo eterno dom de poder compartilhar a vida,
de poder lutar ao teu lado, perdendo e ganhando,
sofrendo e sendo feliz...

Mas, acima de tudo, por saber que,
por teus olhos, valeu a pena viver!

(Sérgio Ferreira da Silva)

domingo, 14 de dezembro de 2008

O lado literário da Leila...



Mesmo quem conhece a Leila dificilmente conhece a sua escrita: direta, reflexiva, equilibrada e sincera. Faz prosa poética, crônica, poesia. Intuitiva e sempre positiva.
Boas festas e bom final de ano a todos! A Leila fala, agora, pela família toda...





Balanço de Final de Ano


Vejo os dias passando diante de meus olhos: observo cada movimento; cada olhar
e escuto todos os pensamentos.
Penetro em olhares, atravessando-os para atingir, além da matéria, a essência de cada um.
Rio e choro,
Brinco e trabalho.
Amo e sou amada, ou odiada.
Sigo minha vida sem entender o porquê da violência, da maldade e da inveja.
Como é bom chegar até aqui e ver tudo de bom que conquistei.
Como é ruim chegar até aqui e ver tudo de mau que já enfrentei.
A vida é uma jornada interessante e trago boas lembranças das pessoas que cruzaram meu caminho e me ensinaram coisas diferentes.
Não tenho riquezas materiais, mas, espirituais, tenho de sobra.
Meu sorriso é meu cartão de visitas.
Minha lealdade, o cartão de permanência.
Meu coração aberto, meu cartão de amizade vitalícia.
Se você é do bem, entre e fique à vontade para repartirmos impressões e vivências.
Se não é, passe, aproveite a boa energia e transforme seus pensamentos.
Precisamos de mais pessoas boas no mundo, para vencermos a violência e a escuridão.
Porque todos nós nascemos para brilhar: não só neste final de ano, mas... por toda a nossa vida!

(Leila Rodrigues)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Incentivando a Poesia e preservando a Natureza!

Já falei aqui de algumas coisas interessantes feitas com poesia: o livro Celebridades (Ame Nova Friburgo), do Sérgio Madureira, em que os artistas foram homenageados com trovas; as trovas do Zaé Júnior, em 200 Outdoors espalhados pela cidade de São Paulo; as trovas postais, que espalhei pelo Brasil e as trovas na agenda Livro da Tribo. Outras iniciativas já fizeram, em São Paulo, por exemplo, uma "chuva de trovas". Trovas eram lançadas do alto do Edifício Itália, e eram emcontradas a quilômetros de distância (hoje essa prática não seria aceitável, porque os papéis não recolhidos contribuiriam para entupimento de esgotos. Vale o registro!)

Pois bem, a empresária e advogada Marinês de Paula, que comanda a empresa Bag Beach, especializada em produção de bolsas e embalagens com a marca da responsabilidade ambiental, ou seja ecologicamente corretas, apostou numa idéia interessante: me propôs estampar em alguns de seus produtos poemas de minha autoria. O resultado está na foto abaixo...



Conheça mais da Bagbeach: http://www.bagbeach.com.br

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Sérgio Bernardo 2




Já falei dele aqui... Leiam esse poema que venceu um dos mais cobiçados concursos do Brasil... Na formatação em que ele publicou. Fala, aí, Serjão!


Movimento
de espelhos

1
O dia
compõe em mosaicos
meus instantes

Amanheço
fragmentos
e durmo
ilusão de conjunto
na mais total
incompletude

Como quem se mira
em espelhos quebrados
restauro
utópicos fractais
de mim

ainda encontro a forma
de esculpir-me
um corpo indivisível

2
Na minha mesa posta
um bule com o choro de
[ontem
servido amargo

Entre os jornais do dia
o roteiro em detalhes
do que podia ter sido

Em vez da geléia de morango
o suor das tarefas
num pote de cerâmica

A faca corta o pão
como se amputasse
a língua do ódio

No balcão da copa
o relógio do microondas
cobra meu tempo

Todo dia às 7
desjejuo em silêncio
e a família ignora
a fome de dentro

3
Desço escadas
tateando teias
que eu ontem teci
junto às aranhas

Procuro os porões
em que apodrecem
palavras puídas

Entre trastes de avós
coleciono em caixas
remorsos antigos

Não existem janelas
nestes aposentos
e a única lâmpada
ainda nova queimou

As paredes gastas
aceitam o mofo
do modo que aceito
o oco dos dias

Nos meus subterrâneos
por que essa mania
de reter o já findo?

4
Fabrico holofotes
com minhas palavras

Cada gesto meu
produz um incêndio

Semeio lâmpadas na casa
no quintal crio vaga-lumes

Sou eu que toda noite
faço o parto da lua

Nos olhos e sorrisos
idealizo abajures

Adormeço meu frio
no colo do fogo

Com dedos de sol
amanheço a cozinha

Prendo estrelas em fios
e as vendo nas feiras

A claridade é meu ofício

5
Que sei eu das sombras
petrificadas em chinês
nas paredes da infância

Que sei eu dos muros
separando mundos
nos quintais da pátria

Nas mesmas palavras
dos mesmos livros
que sei eu de mim

Que sei eu
ignorante em didática
das aulas sonegadas

Eu que não sei nada
sendo parte de tudo
que sei eu do outro

Que sei eu, me diga
das manhãs e tardes
tecidas em silêncio

Órfão das noites
paginando lendas
que sei eu das luas

Na ciranda do tempo
que sei eu da face
que move os espelhos

(Sérgio Bernardo)

Poema premiado no 43º Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), no Paraná

sábado, 15 de novembro de 2008

Adverbiando




Sede de Mente

A anônima mente

mente.

Mente, tão somente,

por ser anônima:

Anonimamente!

A mente

mente, simplesmente.

Mente... por mentir.

Simples mente.

Como mente? Totalmente? Parcialmente?

Mente indefinidamente e,

como mente indefinida,

mente sem alarde,

comumente...

Verdadeiramente, mesmo quem ama

mente:

mente por amar;

mente por mentir...

E quem não ama, mente?

Mesmo quem não amamente!

Urge que, por fim, se saliente:

nem toda mente mente!

Se não houver a quem mentir,

mente a mente

o ente

mente à mente.


Sérgio Ferreira da Silva

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Maria Elizabeth Candio

Conheci a autora desse poema na UBT (União Brasileira de Trovadores) e aprendi a admirá-la, primeiro pela força de seus poemas e, depois, pela sensibilidade no trato com os poetas e trovadores. Professora universitária, é uma daquelas pessoas que, embora distante, permanece no carinho e respeito bem pertinho de nós!


Essa Palavra

(Em memória de Clarice Lispector)

Há que me chegar essa palavra,
fraco fio de forte consistência:
Faca e agulha e lâmina e navalha,
que me trava e me é libertadora.


Há que me chegar essa palavra,
leve lã de longa resistência:
Agasalho e meia e luva e malha,
que me encobre e me é reveladora!



Maria Elizabeth Candio

quarta-feira, 30 de julho de 2008

POESIA – PALAVRAS QUE DANÇAM


Um professor de dança de salão, certa vez, no primeiro dia de aula de uma nova turma, perguntou: “Alguém, aqui, sabe dançar?” Ninguém respondeu, claro! Depois, perguntou: “Alguém, aqui, sabe andar?” Todos responderam que sim... E ele concluiu: “Pois bem, pessoal,... dançar é andar... DIFERENTE!”

Observe os períodos seguintes:

I

Quando criança, eu brincava no quintal dos fundos de minha casa, fingindo ser fazendeiro.

II

Em minha infância eu fazia

ser, meu sonho, tão real,

que uma fazenda cabia

no fundo de meu quintal!

(Sérgio Ferreira da Silva)


O primeiro período é uma descrição simples de um fato ocorrido no passado do narrador, sem nenhum conteúdo emocional. No segundo, narra-se o mesmo fato, de uma forma específica (quatro linhas – versos -, duas rimas e métrica). Existem, ainda, elementos que não estão escritos, mas que estão presentes: a emoção, a beleza, a imaginação e os sentimentos de quem escreveu e de quem está lendo o texto.

A TROVA

O segundo texto é uma trova, que pode ser definida como “...a quadra de sentido completo, composta com versos de sete sons, ritmo livre e rimas cruzadas.” (Francisco Nogueira). Existem outras definições, mas esta é suficiente neste momento.

A trova, como a conhecemos hoje, tem sua origem próxima nas QUADRAS populares portuguesas, como a seguinte, que todos conhecemos:

Oh, Ciranda, Cirandinha,

vamos todos cirandar!

Vamos dar a meia-volta

volta e meia vamos dar!

Repare que, na quadra, ocorre a rima somente entre o 2° e o 4° verso: CIRANDAR rimando com DAR. Mas, a propósito, o que é RIMA?

A RIMA

Rima pode ser definida como a coincidência de sons finais entre as palavras. Os sons finais são aqueles obtidos pela emissão da última sílaba tônica (de som forte).

Por exemplo: CRIANÇA - ESPERANÇA // BOLA - ESCOLA // FOGO - JOGO // SELVA - RELVA // GATO - RATO // PÃO - CORAÇÃO.

Aqui, cabe uma pergunta: Pode haver poesia, sem rima? Observe o poema abaixo, de ZAÉ JÚNIOR:

O CAMINHO

Quando se encontra o caminho

basta continuar a descobrir a paisagem

que ele corta ao meio

e a pedra

e a poeira

e os espinhos

para que não sejam pisados.

Quando não se encontra o caminho

basta levantar as mãos

para que Deus as segure.

O efeito das palavras, o sentimento do texto, está expresso nas palavras escolhidas e no significado delas, que, geralmente, vai além daquele que encontramos nos dicionários. Na poesia livre, que é como chamamos este tipo de texto, embora não se use métrica (que é a quantidade de sons de cada verso), nem rima, os versos possuem uma sonoridade e um ritmo que podem variar, mas esta variação integra e reforça o sentido da poesia. O Texto “O CAMINHO”, compara os trechos difíceis que um terreno pode ter e os momentos difíceis que enfrentamos na vida, para dizer, no final, no que chamamos “CHAVE DE OURO”, da importância da FÉ, embora a palavra “fé” não apareça no texto.

Na poesia de Zaé Júnior, então, encontramos aqueles aspectos que mencionamos no início (emoção, beleza, imaginação e a própria conclusão do leitor que interpretou o texto).

POESIA PARA QUÊ?

Qual seria, então, a importância de escrever? Ou melhor, qual a importância de escrevermos Poesia?

Os escritores, os poetas e os bons leitores costumam ser revelados justamente na infância. Quanto mais cedo se começa a ler e a escrever, mais qualidade na nossa capacidade de entender o mundo e de nos fazermos entender pelos outros: melhor convivência e melhor desempenho profissional, afetivo, etc.

A poesia, como sabemos, é uma maneira diferente de dizer as coisas, independentemente de sua forma, ou extensão.

Quando conversamos com alguém, falamos ao telefone, nos dirigimos a um desconhecido, ou precisamos responder um questionário, ou entrevista de emprego, por exemplo, devemos empregar, em cada caso, uma linguagem própria, pela qual nos faremos entender.

Quando lemos um romance, sabemos da necessidade de longos trechos descritivos, para a exata compreensão de um sentimento, ou, mesmo de um lugar qualquer: cada detalhe, cada lágrima, ou sorriso, devem ser detalhados a tal ponto, que possam formar uma imagem exata, quase uma fotografia na mente de quem lê.

A POESIA É DIFERENTE...

Quando lemos um poema, ou quando ouvimos a declamação de um, além da forma (estética), e do fundo (assunto), somos chamados a refletir e a buscar, em nosso íntimo, um sentimento guardado na memória, fruto de nossa experiência pessoal, de nossa emoção... e, é por este motivo que um mesmo poema pode tocar diferentemente cada um daqueles que o lêem, como faz a música: cada um de nós, em geral, prefere um ritmo a outro e, dentro do mesmo ritmo, gosta de uma música e de outra não. Explica-se, também, assim, o fato de música e poesia andarem de mãos dadas.

RITMO E POESIA

Mais recentemente, o RAP (abreviação de rhythm and poetry), suprimindo, quase que totalmente, a base melódica, mas acentuando o beat (batida), bem como valendo-se de versos com rimas menos complexas e letras de forte apelo emocional, próximas da linguagem da juventude (gírias e diálogos rápidos), deu voz à periferia das grandes cidades de todo o mundo, às populações menos favorecidas e ocupou um espaço próprio no cenário cultural.

CONCLUINDO...

Assim, a poesia, com suas diversas formas, numa trajetória que acompanha e, às vezes, até antecipa a evolução humana, naquilo que diz respeito à expressão de seus sentimentos (amor, saudade, dor, perda, alegria, coragem, força, fé, etc.), sempre foi e será necessária no dia a dia de todos nós, como instrumento de cultura, de identidade, de transmissão de conceitos e valores. Afinal, em vez de dizer que o poeta, quando cria, expõe seus sentimentos,... talvez, uma trova... possa dizer mais:

Poeta é aquele que traz

o Sol e a Lua em seu peito,

despreza a razão e faz

do desvario... um direito!

(Sérgio Ferreira da Silva)


Agora, você já sabe DANÇAR!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Reflexões Íntimas


Reflexões Íntimas é um livro póstumo. Editado (2008) pelos familiares de Waldir Neves, um dos maiores trovadores brasileiros. Tive a honra de conhecê-lo em 1997, por ocasião dos Jogos Florais de Nova Friburgo (o primeiro em que me classifiquei). Waldir era amável, bem humorado e foi um grande professor. Com ele, aprendi da melhor forma: pela leitura de suas trovas, poemas, sonetos e, principalmente, das conversas amistosas em que ele delicada e pontualmente me mostrava onde eu poderia melhorar e onde havia acertado. Meu contato com ele foi frequente nas festas de entrega de prêmios, por esse Brasil trovador. Os que conviveram mais proximamente, no Rio de Janeiro e em Friburgo, são testemunhas da amizade e qualidade de um TROVADOR com todas as letras maíusculas, como poucos! Sua benção, Waldir!

Do livro, destaco, pela profundidade e pela simplicidade...


POEMA DO PINGO D'ÁGUA

Cada vez mais espaçado,

depois que a chuva parou,

o pingo d'água, cansado,

foi pingando... e não pingou.

No seu destino traçado,

e no tempo se acabar,

a vida é pingo chorado,

que pinga... até não pingar.

(Waldir Neves)