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quarta-feira, 10 de junho de 2015

POEMA PARA COLORIR



Poema para colorir



Inspirado por esta verdadeira tsunami de publicações para colorir, destinada ao público adulto, em que, geralmente, não há uma palavra sequer, além daquelas dispostas na capa e contracapa, resolvi escrever um poema que falasse, principalmente, daqueles momentos em que a vida transcorre em preto e branco, mas que são excelentes oportunidades de colorização.

A Leila, que leciona Arte,  abraçou a ideia e distribuiu entre seus alunos do ensino fundamental (5º ao 9º anos), cópias do poema para leitura, reflexão e prática de pintura.

Os trabalhos integrarão os portfólios de cada aluno, que serão expostos ao final do curso, juntamente com as demais atividades desenvolvidas pelas turmas.

Outras cópias foram distribuídas a crianças de nosso convívio. Duas delas mostraram o poema a suas professoras de português, que também irão distribuí-las, por sua própria iniciativa, entre seus alunos.

Hoje, pelo menos 500 cópias já foram distribuídas, o que é motivo de alegria.

Abaixo, disponibilizo o poema para cópia e colorização livres e espero, sinceramente, que ele possa colorir os seus momentos.


(Sérgio Ferreira da Silva)



Clique na imagem para ampliar ou imprimir.
















terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A Aurora e o Poente, de Heloísa Zanconato & José Fabiano

 
 
 
Lançado em 2001, o livro "A Aurora e o Poente - Versos Líricos" traz sonetos e trovas dos poetas mineiros Heloísa Zanconato e José Fabiano, em parceria anterior àquela da postagem anterior, com José Ouverney.
 
O meu destaque, desta vez, vai para dois sonetos, um de cada autor, que, de certa forma, "dessacralizam", primeiramente, a figura do fazer poético, negando a aura da inspiração e da sensibilidade pura como forças motrizes do poeta. Num segundo momento, o foco está nos próprios sentimentos "motivadores", digamos assim, do poeta.
 
 
Novamente, chamo a atenção do leitor para a construção de ambos os sonetos. Ambos têm detalhes que os fazem figurar, pelo menos em minha estante, como poemas especiais, pela diferenciação dos temas  e, principalmente, da retórica envolvida. Vamos a eles...
 
 
SONETO
 
Quando a tristeza me arrebata o pranto
ou a alegria, o coração, me assalta,
busco na rima o aprimorado encanto
que, às vezes, sobra em tudo o que me falta...
 
Não é preciso a proteção de um Santo,
nem mesmo a voz da inspiração mais alta;
tampouco, as notas magistraiss de um canto
ou o esplendor das luzes da ribalta...
 
Basta uma folha em branco... e um pena
e a alma transborda, de venturas, plena,
do primo verso ao último terceto...
 
E após o parto... e alcançada a meta,
sente-se um Semideus, este poeta
que deu a luz a um clássico SONETO!
 
(Heloísa Zanconato)
 
 
A elaboração de qualquer texto, ou de um poema em especial, pressupõe uma relação existente de emissão e recepção de uma mensagem, de utilização e comprensão de signos.
 
Não há poeta que não idealize seu leitor, seja ele um outro poeta, ou um interessado, cultor da poesia. De outra parte, tão ou mais idealizado ainda é o poeta, na concepção do leitor.
 
O leitor sempre espera que o poeta escancare sua alma, desnude-se perante a plateia muda e dispersa. Se amou, ou se perdeu seu amor; se venceu, ou foi derrotado. Tudo deve estar no papel.
 
Porém, um poeta que foi muitos outros, Fernando Pessoa, quebrou estas expectativas recíprocas, ao escrever que "O poeta é um fingidor".
 
Mas este "fingidor" não é sinônimo de mentiroso ou falso. A palavra fingidor nasce no latim (fingo, fictum, fingere), no sentido de "moldar o barro". Então, o poeta não mente, molda. Toma uma massa disforme, o barro das sensações e o transforma em um conceito, em uma sensação primeiro pensada, trabalhada, moldada, entendida e, talvez, depois, sentida.  
 
É exatamente isto que Heloísa dispõe em seu SONETO: no primeiro quarteto, ela relaciona alguns prováveis elementos motivadores de sua poesia, sua massa disforme (tristeza, pranto, alegria, rima); no segundo, elimina todas as possibilidades de influências mágicas, espirituais, artísticas e estéticas, para dizer que, o que a impulsiona é a razão.
 
No primeiro terceto, reduz toda a elaboração do poema às questões materiais: um papel em branco, algo para grafá-lo e, num verdadeiro impulso criativo, ela escreve "do primo verso ao último terceto".
 
No segundo terceto, então, desincumbida do árduo trabalho criativo, o poema, aí sim, é sacralizado (semideus) e ganha vida (parto). Espírito e matéria são o próprio soneto.
 
Três observações finais sobre este soneto: 1) seu nome é SONETO, ou seja o nome da própria forma lírica adotada; 2) É um poema metalinguístico, ou seja, em si mesmo discute a própria criação literária e a produção do poema; e 3) o emprego magistral da circularidade, vez que SONETO é a primeira e a última palavra utilizada no soneto! Outro detalhe da circularidade é o estabelecimento de um ambiente fechado, que ao mesmo tempo é restrito e infinito. Marca de gênio e de talento.
 
Não é por menos que Heloísa é considerada, e com justiça, uma das grandes sonetistas da atualidade. Essa foi a Aurora.
 
Nosso amigo Poente não deixa por menos...
 
O LIXO
 
Pela manhã de certos dias, passa
o caminhão de lixo em minha porta
e para longe, rápido, transporta
aquilo que, imprestável, me embaraça.
 
Vai carregando como coisa morta
de serventia para mim escassa,
mimos onde antes via brilho e graça,
cujo destino já não mais importa.
 
As ilusões e sonhos juvenis
de que seria célebre e feliz
conservei longos anos, por capricho.
 
Ante a verdade da fatal velhice,
hoje os desprezo, como se pedisse
que a vida me liberte deste lixo...
 
(José Fabiano)
 
 
José Fabiano constrói seu soneto negando, aparentemente, a própria condição de texto poético.
 
Os dois quartetos iniciais remetem ao gênero crônica. A relação autor/leitor dá-se pela proximidade fixada entre as pessoas reais envolvidas (poeta e leitor) e não nos seus papéis no estabelecimento do vínculo da linguagem (emissor e receptor). Explico: autor e leitor são pessoas que moram em lugares onde, em dias pré-determinados da semana passa um caminhão de lixo, que leva o lixo, ou seja, tudo aquilo que não tem mais serventia, ou estragou: tudo o que seletivamente descartamos de nossas vidas, materialmente falando (técnica invariavelmente utilizada pelos cronistas, que costumam chamar a atenção do leitor para aspectos comuns do cotidiano de ambos).
 
Primeiro ponto em comum entre os dois autores, Aurora e Poente: o estabelecimento de parâmetros materiais de comparação para falar de sentimentos. Claro que o ato de moldar o sentimento a partir da reunião de elementos e organização da massa disforme, em Fabiano, passa, primeiro, pelo estabelecimento desse elo identitário com o leitor.
 
Disposto o conceito e pressupondo que ele corresponda à verdade literária que o autor estabelece, nos tercetos finais José Fabiano arremata brilhantemente seu soneto, ao dizer que as ilusões e sonhos (imateriais) que não conseguiu concretizar (tornar matéria) são como o lixo ao qual ele fez menção no início e dele merecem apenas o desprezo, embora deles não esteja liberto.
 
Ora, a visão romântica do poeta que vive de sonho, é quebrada pelo próprio poeta. Não há esperança. O tempo passou e aquilo que era meta, ou anseio, perdeu-se no tempo. Mas continuam preservados "por capricho".
 
Dessa forma, em Fabiano, a dessacralização é a de si mesmo, enquanto autor, enquanto poeta. Mas sua negação, antes de produzir este efeito (com a eliminação do sonho e da ilusão), é, mais, uma afirmação da mantença da esperança, porque feita poeticamente, em forma de soneto.
 
A metalinguagem, em "O lixo" é subentendida. Permeia todo o soneto, mesmo os quartetos, pela adjetivação positiva emprestada ao lixo, propriamente dito (mimos, brilho, graça).
 
Por fim, também neste segundo soneto a circularidade fica estabelecida porque a palavra "lixo" é repetida no início e no encerramento do soneto. Coisas de quem sabe o que faz!
 
Não abordei propositadamente as questões mais comesinhas da arte poética, como rima, ritmo, emprego de pausas e do campo semântico, visto que procurei chamar a atenção para aspectos que, geralmente são mais "sentidos" do que vistos.
 
Faço ressalvas às minhas próprias análises: além de serem pontuais, no emprego da técnica do recorte, são, também, leituras como quaisquer outras. Li, gostei e comentei da melhor maneira que pude, para torná-las mais palatáveis, bem entendido, aqui, que o problema está na leitura, que é  sempre parcial, sectária, por depender, sempre, dos paralelos estabelecidos pelo "postador". Os poemas, estes sim, devem ser lidos/relidos e você, leitor idealizado/idealizador, deve trazer novas conclusões à luz.
 
Além disto, os poemas estão publicados e existem independentemente da leitura que deles se faça, seja ela profunda, rasa, ou em nível acadêmico. Importam mais como arte e expressão literária. Permanecerão.
 
Sobre os dois poetas abordados, José Fabiano, um mestre dos encontros e Heloísa, tenho a dizer, apenas, que desde que comecei seriamente a pensar a poesia tenho por eles um carinho muito especial. Heloísa Zanconato, em meus primeiros anos na trova, antecipou algumas conquistas futuras, e indicou caminhos preciosos. Só tenho a agradecer e render-lhe este singelo mimo, em forma de postagem.
 
 
 
 
 
 
  




sábado, 17 de setembro de 2011

Action Poetry


(Jackson Pollock)


Action Poetry

Um poema acabado

revisado

rimado

metrificado

consagrado

dissecado

explicado

e publicado

para ser completamente entendido

(ou para fingirmos que sabemos o quanto ele é sublime)

geralmente é comparado às pinturas de

Velázquez

Da Vinci

Caravaggio

Van Gogh

Renoir

Manet

não tão frequentemente às de

Dalí

Miró

Picasso

escrever o poema

no entanto

é jogar

“os grãos na água do alguidar”

escrever é Pollock!


(Sérgio Ferreira da Silva)

sábado, 12 de junho de 2010

Back to the past

Christopher Lloyd na famosa cena do relógio, em Back to The Future
Back to the past!

Quando, por fim, for o fim
e o silêncio gritar por mim,
irei voltar, sem pressa, ao que fui...

Irei, com vagar, feliz e seletivamente,
buscar lugares amenos.

Parnasianamente!

Meus olhos não serão românticos:
manterei uma distância segura,
para que eu não me veja
e não cause um abalo no espaço-tempo-contínuo,
como temia o Doutor Emmett Brown!

Não sou Marty Mcfly!

Meu eu-lírico, agora, escrevendo Back to the past!,
quer apenas resentir...
com um “s” só
mas se ressente, porque o sentimento não volta!

O que volta é vago e descontínuo.
Não há tempo, nem espaço e tudo é diferente.

Voltar é perder tempo: melhor é segurar outra vez a tua mão,
sentir o que houver para sentir, segurando tua mão,
olhando nos teus olhos
e, se pintar um clima,

beijar-te

e elogiar teu novo corte de cabelo!

Parar de pensar no fim...
Apenas um beijo,

agora!

Sérgio Ferreira da Silva

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Domingo no Parque 12


Eu gosto do número 12, por uma dúzia de motivos... Os meses, as horas, os signos, os cachos de banana, os ovos da caixa, as caixas de leite na caixa maior...e mais 6 etceteras! Depois daquele domingo inicial, escrevi 12 poemas, para 12 esculturas e para os sentimentos despertados por elas. Foi um exercício interessante, porque pude falar melhor de mim, de outros e do jogo de interações estéticas entre a poesia e a escultura. Voltei à Pinacoteca, depois daquele domingo: as esculturas não eram as mesmas, quer dizer, eram as mesmas mas os seus significados, para mim, haviam mudado! Espero que a série "Domingo do Parque" tenha atuado em sua percepção, leitor, como atuou na minha.


(Luisa - Sonia Ebling - 2000 - Bronze - Acervo da Pinacoteca do Estado - foto by Leila Rodrigues)


Passo suspenso


No mesmo instante

o passado

o presente

e o futuro



Sérgio Ferreira da Silva





segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Domingo no Parque 11

(Voo de Pássaro - Liuba Wolf - 1971 - bronze - Acervo da Pinacoteca do Estado - foto by Leila Rodrigues)

Ninho


O poema voa muito acima de mim:

faz círculos

canta

flana

ameaça pousar


e não pousa!


Aos poucos, aproxima-se

(ele é cauteloso).


Em meu sentimento,

enquanto procuro entendê-lo,

me parece leve

livre

e selvagem!


Mas...

ele pousa


em mim


Ele é maciço

e não pode mais voar...


Sólido.

Pássaro.

O poema.

Sérgio Ferreira da Silva


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Domingo no Parque 10


(PIRAMIDAL 34 - Ascânio Maria Martins Monteiro - 1999 - Alumínio anodizado com parafusos de aço inoxidável - Acervo da Pinacoteca do Estado - fotos by Leila Rodrigues, de dois ângulos diferentes)

Poema Múltiplo


Um verso metrificado,

outro livre...

Metade dele rimado

...o resto, não!


Uma das faces encobre...

a outra mostra!

E é o olhar que, então, descobre

a transparência!


Quantas leituras do olhar

para o mesmo objeto?

O afã de multiplicar

o que é único...


Nós todos somos assim:

múltiplos!

Todas as coisas, no fim,

dependem do ponto de vista!


Sérgio Ferreira da Silva


sábado, 24 de outubro de 2009

Domingo no Parque 9

(FÓSSIL - Granito e escapamento de automóvel - Sônia Von Brusky - 2000 - Acervo da Pinacoteca do Estado - foto by Leila Rodrigues)


Fóssil (ou pequenas histórias para não dormir!)


Naquele tempo,

quando os homens habitavam a terra,

havia enormes povoados,

chamados cidades.

E as cidades cresceram:

as habitações foram ficando cada vez

maispróximasumasdasoutras

até que começaram a elevar-se...

e surgiram os prédios!

E como não havia mais espaços,

tudo ficou distante, tudo!


eparaencurtarasdistâncias


os homens inventaram os carros

que, para funcionarem, usavam combustíveis;

que, queimados, produziam a fumaça

que saía dos escapamentos,

poluindo o mundo, a tal ponto,

que tudo morreu...


exceto os granitos e os escapamentos!


Sérgio Ferreira da Silva

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Domingo no Parque 8

(HOMEM PÁSSARO - Nicolas Vlavianos - 1985 - Aço Inoxidável Escovado - Acervo da Pinacoteca do Estado - foto by Leila Rodrigues)

Homem pássaro

"Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho

Eles passarão...

Eu passarinho!"

(Mário Quintana)


Eu passarei pelos caminhos

pelos quais passaste

ou, juntos,

passaremos por caminhos

que julgaremos serem nossos


e os que vierem depois

passarão também pelos caminhos

e terão a impressão de que são os primeiros a passar

pelos caminhos pelos quais já passamos


nós não fomos os primeiros

e não seremos os últimos

a passar


os caminhos sabem

os pássaros também


nós, os passantes, não:

nós, sempre, passamos pela primeira vez...

sempre!

Sérgio Ferreira da Silva


sábado, 17 de outubro de 2009

Domingo no Parque 7

(FIGURA HERÁLDICA - Liuba Wolf - Bronze - 1976 - Acervo da Pinacoteca do Estado - foto by Leila Rodrigues)


O nome dessa escultura é Figura Heráldica. A Heráldica é definida na Wikipédia como a ciência, ou a arte "de descrever os brasões de armas ou escudos. As origens da heráldica remontam aos tempos em que era imperativo distinguir os participantes das batalhas e dos torneios, assim como descrever os serviços por eles prestados e que eram pintados nos seus escudos. No entanto, é importante notar que um brasão de armas é definido não visualmente, mas antes pela sua descrição escrita,...". As figuras não humanas (animais ou seres fantásticos) são chamadas de "suporte".

SUPORTE


A primeira batalha de um poeta

é travada com uma linha em branco;

a segunda batalha ele trava consigo,

com ninguém mais.


Depois de perder as duas batalhas,

rendido, quase morto,

ele escreve

ou digita, ou sangra, ou verte

umas linhas soltas, rimadas, ritmadas - não importa!


Importa é que ele perdeu


o poema se foi

feito bicho

feito um amor

feito um filho

feito a própria vida que escorreu para o papel

ou para a tela

ou para a gaveta mais próxima!


O poema é essa criatura heráldica

amorfa

mitológica

indefinida

suporte da história de vida do poeta

ou

das vidas que ele inventou

para viver

ou morrer


com honra.

Sérgio Ferreira da Silva

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Domingo no Parque 6

(ENCONTRO E DESENCONTRO - Arcangelo Ianelli - Mármore - 2002 - Acervo da Pinacoteca do Estado - foto by Leila Rodrigues)

REENCONTRO


Na clássica frieza do mármore polido,

opostos e semelhantes...

Nos vãos intransponíveis da individualidade,

contato e leveza...

Nas direções contrárias e seus trilhares,

o equilíbrio e o apoio...

Na fragilidade insustentável do peso das coisas,

a firmeza da pedra!

Nas noites sombrias e sem horizonte,

um claro porvir!

Na consciência das limitações de cada um,

o afago da completude...


Feitos da mesma terra,

do mesmo calor vulcânico,

da mesma vontade:

molécula por molécula!


Você e eu.

Sérgio Ferreira da Silva

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Domingo no Parque 5

(SEM TÍTULO - Ivens Machado - Concreto Armado - 2000 - Acervo da Pinacoteca do Estado - foto by Leila Rodrigues)

Quase

Por dentro, tem esqueleto...

mas, a pele é de concreto:

uma girafa incompleta,

parada, imóvel, direta!


Traz linhas em cada pata

(quase-girafa acrobata),

e as patas são o sustento

do corpo sem movimento.


A quase-girafa é um esboço:

faltam cabeça e pescoço!

Tantas árvores por perto!

Tanta luz no céu aberto!


E, sem poder mastigar,

nem, tampouco, desfilar,

nossa imensa cinderela

não é, sequer, amarela!


Sérgio Ferreira da Silva

Domingo no Parque 4

(Sem título - Angelo Venosa - 2000 - Aço Cortén - Acervo da Pinacoteca do Estado - foto by Leila Rodrigues)


DICOTOMIA


um a um

ponto a ponto

minuto após minuto

vértebra por vértebra

vingança contra vingança

camada sobre camada

temor após temor

pele contra pele

passo a passo

verso a verso

linha a linha

irmão versus irmão

sangue do sangue

frente a frente


Sérgio Ferreira da Silva

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Domingo no Parque 3

(ORAÇÃO - Karoly Pichler - 1970 - Ferro - Acervo da Pinacoteca do Estado - foto by Leila Rodrigues)



Oração

Lavrar o metal,

moldar a palavra,

no fogo ancestral,

herança de Deus.

O ferro e a palavra

moldados e afins:

simétrica lavra

lançada no chão

No centro de tudo,

o início e o fim:

um círculo mudo,

suspenso no ar.

Na voz do escultor

o fogo é que fala,

em força e calor

leveza e sentido.

Também o poeta

diz mais no que cala

na forma concreta

e nas entrelinhas

São alma e matéria

o ferro e a palavra:

mensagens etéreas

da mesma oração.


Sérgio Ferreira da Silva

domingo, 11 de outubro de 2009

Domingo no Parque 2

Mais um...



(FITA - Franz Weissmann - Aço Pintado - 1985 - Acervo da Pinacoteca do Estado - Foto by Leila Rodrigues)


Fita


Um gesto só da ginasta

e a fita a esmo esvoaça...


Não é de aço essa fita,

que na leveza se basta


da moça, que em vão se agita,

num gesto só, de ginasta!


Fita vermelha, tão casta,

na mão sem cor da ginasta,


que a passos mudos... se afasta:

não quer fitar essa fita!


e, assim, a fita se arrasta

e deixa, então, de ser fita:


volta a ser aço, que imita

o gesto só da ginasta!



Sérgio Ferreira da Silva