segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
José (Fabiano e Ouverney): um livro a quatro mãos!
sábado, 30 de julho de 2011
Um varal digital
No livro de 1999, “Vertentes e evolução da literatura de cordel”, obra de Gonçalo Ferreira da Silva (belo sobrenome, o dele!), há um trecho dedicado às estrofes chamadas de Setilhas, conjunto de sete versos, com sete sílabas tônicas (redondilhas maiores). Neste trecho, o autor menciona que esta não era uma modalidade muito praticada nos primórdios da produção ”cordelística” que derivou dos cantadores nordestinos (que seguiam a tradição oral, por natureza).
Passados dez anos do registro de Silva, as ocorrências aumentaram, dada, inclusive a multiplicidade de meios (leia-se internet) para publicação de versos. A poesia, na era digital, encontrou campo fértil para multiplicar-se e passar por uma reinvenção, cujo verdadeiro alcance só será plenamente estudado, creio, em alguns anos. Assim, o cordel encontrou, no mundo digital, o seu “varal” mais extenso.
Este preâmbulo faz-se necessário para que eu possa comentar, aqui, o livro "Cantando ao som das setilhas”, presente recebido do irmão trovador Thalma Tavares.
Thalma é um dos sete autores do livro. Os demais são Antônio Augusto de Assis, Delcy Canalles, Prof. Garcia, Gislaine Canales, Arlindo Tadeu Hagen e José Lucas de Barros. Todos eles destacados trovadores brasileiros e que se propuseram a transformar em livro um “debate” que estabeleceram na Internet, por email.
A proposta é interessantíssima: o primeiro trovador compõe uma setilha e a envia por email ao segundo, que compõe a sua e a remete ao terceiro, até que a corrente chegue ao sétimo, que a envia ao primeiro, fazendo recomeçar o ciclo.
O esquema normal de rimas da setilha é o seguinte: (a) (b) (c) (b) (d) (d) (b) , ou seja, o primeiro e o terceiro versos não rimam; rimam entre si o segundo, quarto e sétimo, além do quinto e sexto. No livro, porém, a possibilidade de rimas foi ampliada, visto que os poetas, com genialidade, usaram a técnica do encadeamento (ou guirlanda, ou ciranda), fazendo o último verso da estrofe recebida rimar com o primeiro verso da próxima.
E conversaram, em versos, de 01 de Agosto a 22 de Novembro de 2009. Trinta e cinco estrofes cada um... E apresentaram-se, falaram do clima, saúde, política, morte, vida, anseios, esperanças, ou seja, fizeram o que melhor sabem: foram poetas.
Minha vida em Pirangi
é fazer verso e sonhar,
conversar com as estrelas,
tomar banho de luar
e colher, durante o dia,
os retalhos de poesia
que a Lua deixa no mar.
72 - Gislaine
Por isto eu vivo a cantar,
na minha nova morada;
em meio ao mar e à montanha,
eu escuto a passarada,
que me acorda todo o dia
com seu chilrear de alegria,
com a voz do mar, mesclada.
73 - Prof. Garcia
Em cada manhã sagrada
pela mão do criador,
eu olho para o infinito
só vejo paz e esplendor;
não tem montanha nem mar,
mas minha vida é sonhar
fazendo versos de amor!
74 - Delcy
Como um voo de condor,
pelo céu das minhas rimas,
faço um passeio estonteante,
enfrentando quaisquer climas,
e, então, eu escrevo versos,
em poemas bem diversos
que, às vezes, dão obras primas!
75 - Assis
Se a natureza sublimas,
começa a alegrar-te então,
que ela está pronta e enfeitada
para a troca de estação.
É a grande festa das flores,
o espetáculo das cores,
lá fora e no coração.
76 - Tadeu
Quando o sol da inspiração
banha de luz e energia
no coração do poeta
por encanto, se inicia
um período multicor
e a estação,
seja qual for,
vira estação da Poesia!
77 - Thalma
Quanta luz, quanta energia
que a poesia libera
quando o poeta pressente
a vinda da primavera!...
E o poeta sentindo a brisa,
sonhos de paz realiza
e a inspiração prolifera..."
sábado, 12 de setembro de 2009
Um pouco de ritmo
No compasso das batidas,
o meu coração suplica,
pelo bem de nossas vidas:
Fi...ca! Fi...ca! Fi...ca! Fi...ca!
Nessa definição, o ponto comum é a existência de "intervalos regulares" entre os "acentos".
Em poesia, seja ela rimada, metrificada ou livre (com versos de tamanhos diferentes e rima não obrigatória) há de haver um ritmo, que pode ser variável, ou não. É quase como dizer que há um pulso. Escolha um poema de seu agrado, ou qualquer um desse blog e verá que isso é verdade. Um pouco mais difícil de perceber é o ritmo na prosa. Ele também está lá e, muitas vezes, é responsável pela emoção do texto (Guimarães Rosa, por exemplo, foi um mestre dessa inserção, trabalhando a rima, inclusive, de forma imperceptível... coisa de gênio!).
Fiz a trova da epígrafe com algumas intenções veladas: a primeira delas foi transformar a palavra "fica", no quarto verso, em um pulso cardíaco, efeito que se garante pela repetição, principalmente pelo fato de que ela só tem duas sílabas poéticas (dois sons); a segunda foi marcar o ritmo da trova como um todo, na terceira sílaba poética, já que o segundo verso tinha uma segunda sílaba forte, na palavra "meu";... A terceira, foi uma referência a uma trova do Arlindo Tadeu Hagen, que está na postagem sobre as trovas de guardanapo, conhecidíssima em todo o Brasil e muito bonita, que termina com o verso "...fica pelo amor de Deus!", também marcado na terceira sílaba poética.
Sua benção, Tadeu!
domingo, 26 de julho de 2009
Trovas de Guardanapo
Pois foi em Friburgo que minha filha, a Laura, teve uma idéia interessante, porque não fazer um livro de guardanapos. A idéia "pegou" e, em poucos minutos, grandes trovadores do Brasil inteiro estavam escrevendo sua trova preferida para ilustrar a primeira coletânea de trovas de guardanapo do Brasil.
Os guardanapos foram reunidos e lidos ali mesmo, no dia 16 de Maio de 2009. Digitalizei os guardanapos e o José Ouverney está revisando, para uma versão eletrônica. Aguardem!
Por enquanto, fiquem com a trova do Magnífico Trovador Arlindo Tadeu Hagen, um refinado aperitivo, antes do "jantar poético" que se aproxima!
não insistas neste adeus.
se não for por meu amor,
fica, pelo amor de Deus!
(Arlindo Tadeu Hagen)
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Crônica 1

Quase inexorável
Infância é um brinquedo usado,
que um dia a vida resolve
tomar um pouco emprestado
e nunca mais nos devolve.
(Arlindo Tadeu Hagen)
“- Você já pensou na inexorabilidade (1) do tempo?”
A pergunta partiu de um senhor, sentado ao meu lado no banco do trem, que acabara de parar na estação Moóca. Meio desconcertado, ponderei o porque do questionamento.
O homem fez um breve silêncio e, olhando para fora, apontou para a estação e comentou que ao ser inaugurada, a estação da Moóca era um primor: toda decorada com pastilhas, sem as grades e pichações que a descaracterizavam agora. Para ele, o local que era orgulho dos políticos da época, estava abandonado e ele se entristecia ao ver que o tempo a tudo deteriorava e consumia implacavelmente, sem que nada se pudesse fazer.
Para tentar suavizar sua amargura, argumentei que o tempo, embora implacável com a estação da Moóca, trouxera moderníssimas estações de metrô e, mais recentemente, reformara completamente a Estação da Luz, para transformá-la num centro cultural de primeiro mundo (o Museu da Língua Portuguesa), sem descaracterizar a concepção original, sendo provável que isso, um dia, pudesse ocorrer com a estação da Moóca.
“– Talvez!” Disse isso e desceu no Brás. Eu, na Luz.
Naquele mesmo dia, minha filha, entediada com o computador, me propôs brincarmos de adivinhas, como tantas vezes eu brincara com minha mãe, tempos atrás...
E, assim, trazendo de volta o meu passado, de adivinha em adivinha e de risada em risada, até adormecer, minha filha me ensinou que o tempo, embora pareça inexorável, é relativo, como já teorizava Einstein.
Mesmo na singeleza de um “o que é, o que é...”
(1) Qualidade do que é implacável, rígido, inexorável
Foto: Estação da Moóca - acervo Thomas Correa.
