a força do teu olhar
muda a cor do dia!
Poesia, Prosa, Artes Plásticas, Música, Video, Quadrinhos, enfim: Trovas e Companhia!


PROPOSIÇÃO
Servidor incorruptível da verdade e da memória
escrevo sentado e obscuro palavras terríveis
de ignomínia e acusação. De pouca ternura
também. Na penumbra deste recanto anónimo,
a aranha sombria entretece na quebradiça
baba lucilante o fabrico da História
que há-de ler-se. Animal cauteloso,
retraçando um velho ritual, seus gestos
assumem, ainda assim, a gravidade hesitante
do risco calculado. Séculos de aprendizagem
me ensinaram uma humildade serena. Escrevendo,
escrevo-me, reconciliado com os agravos
suportados e as ofensas infligidas. Os olhos
que mal vêem, viram e não querem esquecer.
E o que não vêem agora, descortina-o a exercitada
sabedoria de quatro sentidos despertos.
Enganei e fui enganado à porta do templo;
no deserto aprendi com a sede a parcimónia.
A um só tempo três mulheres amei
e a nenhuma delas deveras amava. Convicto
lhes menti; foram felizes. Eu não. Por isso
sofri lendo-lhes nos rostos a exaltação
ardente de suporem-se amadas. Traindo,
sucumbi também aos ardis de Atena. Traído,
duplamente traído, a traição que me vitima
em traidor me erige. Hesitações e lapsos
da vontade, por hábito se mudaram
em outras tantas vilezas traições.
Venho de longe, no verbo latino, no axioma
grego, fui escravo no Egipto, homens
morreram a meu lado e vendo-lhe os olhos
agónicos e súplices, voltei horrorizado o rosto.
Aprendi depois o convívio com a morte e que mortos
são apenas gente que nos espera dormindo.
Engendrei filhos, plantei a árvore, ergui pedra
a pedra uma morada. No termo devido, aqueles
dispersaram-se a um destino vário. Breve
me quedava a contemplar os calcinados
escombros da casa que os vira crescer e partir.
Imóvel, assomo agora ao limiar maldito onde,
a fugitiva luz que estremece e, roxa, coagula,
velhos que ninguém conforta, hesitam
e aguardam, repartindo em partes iguais
menos pão do que amargura resignada.
Esta é a sequência das imagens quebradas que o sol
descarna, fragmentos de um corpo cuja
acabada totalidade se perde no torvo domínio
do indecifrável. Em cada reflexo cintila a verdade
e todos reenviam ao mais espesso negrume.
Sorriam pois, falsos deuses, ao meu penoso e árduo
linguajar; que as glórias efémeras cumpram
o seu destino meteórico e, no azul, a esfera
retenha o escorreito traçado da sua curvatura.
A História que há-de ler-se é por mim escrita.
Anonimato igual nos cobrirá. A estas palavras não.
Antônio Carlos, generosamente, me brindou com seu livro “Primeiros versos”, obra que veio a lume como registro da trajetória poética do autor, em seus primeiros tempos de poesia, posto que ele sempre organizou seus escritos (o que costuma ser raro entre os poetas) em ordem cronológica. Faz metalinguagem ao escrever...
Publicado pela editora Virtual Books, “Primeiros Versos” transborda talento e alma e sela um compromisso com sua musa inspiradora...
“...Já foste a inspiração dessa minha arte
Os Jogos Florais deste ano, em Friburgo, marcaram o primeiro encontro dos trovadores locais com seus admiradores de todo o país. Foi um encontro de emoções sucessivas e intensas... Antônio Carlos Rodrigues, com sua sensibilidade ímpar, foi o protagonista do mais emocionante momento de todos os Jogos Florais, justamente em seus final, como vencedor do concurso realizado nos três dias de jogos, cujo tema foi, muito a propósito, RENASCER... Eis a trova que fecha esta postagem, uma verdadeira chave de ouro:
No livro de 1999, “Vertentes e evolução da literatura de cordel”, obra de Gonçalo Ferreira da Silva (belo sobrenome, o dele!), há um trecho dedicado às estrofes chamadas de Setilhas, conjunto de sete versos, com sete sílabas tônicas (redondilhas maiores). Neste trecho, o autor menciona que esta não era uma modalidade muito praticada nos primórdios da produção ”cordelística” que derivou dos cantadores nordestinos (que seguiam a tradição oral, por natureza).
Passados dez anos do registro de Silva, as ocorrências aumentaram, dada, inclusive a multiplicidade de meios (leia-se internet) para publicação de versos. A poesia, na era digital, encontrou campo fértil para multiplicar-se e passar por uma reinvenção, cujo verdadeiro alcance só será plenamente estudado, creio, em alguns anos. Assim, o cordel encontrou, no mundo digital, o seu “varal” mais extenso.
Este preâmbulo faz-se necessário para que eu possa comentar, aqui, o livro "Cantando ao som das setilhas”, presente recebido do irmão trovador Thalma Tavares.
Thalma é um dos sete autores do livro. Os demais são Antônio Augusto de Assis, Delcy Canalles, Prof. Garcia, Gislaine Canales, Arlindo Tadeu Hagen e José Lucas de Barros. Todos eles destacados trovadores brasileiros e que se propuseram a transformar em livro um “debate” que estabeleceram na Internet, por email.
A proposta é interessantíssima: o primeiro trovador compõe uma setilha e a envia por email ao segundo, que compõe a sua e a remete ao terceiro, até que a corrente chegue ao sétimo, que a envia ao primeiro, fazendo recomeçar o ciclo.
O esquema normal de rimas da setilha é o seguinte: (a) (b) (c) (b) (d) (d) (b) , ou seja, o primeiro e o terceiro versos não rimam; rimam entre si o segundo, quarto e sétimo, além do quinto e sexto. No livro, porém, a possibilidade de rimas foi ampliada, visto que os poetas, com genialidade, usaram a técnica do encadeamento (ou guirlanda, ou ciranda), fazendo o último verso da estrofe recebida rimar com o primeiro verso da próxima.
E conversaram, em versos, de 01 de Agosto a 22 de Novembro de 2009. Trinta e cinco estrofes cada um... E apresentaram-se, falaram do clima, saúde, política, morte, vida, anseios, esperanças, ou seja, fizeram o que melhor sabem: foram poetas.