quarta-feira, 4 de março de 2020

Uma trova por vez... (4)








"Vinte e Oito Pétalas", uma alusão às 28 sílabas tônicas de uma trova, é o livro de estreia de Antonio de Oliveira, trovador nascido em Ribeirão Pires/SP, lançado no início de 2014.

Tive a honra de assinar o prefácio, assim como de tê-lo como prefaciador de meu livro "Poemas para nunca mais".

Antonio de Oliveira, meu amigo e irmão desde a adolescência (e lá se vão mais de 40 anos) é considerado um dos maiores trovadores do Brasil, discípulo direto de nomes como Cipriano Ferreira Gomes, Izo Goldman e Thalma Tavares. Desde muito jovem, já nos idos anos 80, destacou-se em diversos concursos de trovas pelo Brasil.

Suas trovas sempre se destacaram pela maturidade poética que demonstravam, imagéticas, bem elaboradas, repletas de achados.

A trova que destaco nesta postagem, considero uma pérola do lirismo que sublima o gênero por trazer, naquilo que não diz, a sutileza do erotismo em uma relação amorosa...


O lençol, conforme o assentas,
traz-me a imagem fugidia
de um mar que, após as tormentas,
amanhece em calmaria!

Entrelinhas, metáfora, o ponto de vista do "eu lírico" conduz o olhar e o pensamento do leitor.

O que o poeta não diz, remete à noite que antecedeu o tempo presente do poema, na qual os amantes, entregues ao desejo fizeram do agora calmo cenário do quarto de dormir um tempestuoso palco da paixão à qual se entregaram.

E, realmente, o 3º e 4º versos são reveladores do que aconteceu ali: o que faz com que o leitor seja obrigado a reler os dois primeiros versos, para entender o porquê de o lençol que ainda não foi assentado representar, no estado em que previamente se encontrava, as tormentas de um mar revolto no momento passado.

Há um jogo temporal nesta trova e uma antítese: o passado recente da paixão avassaladora e o presente da contemplação, da lembrança dos momentos tórridos, simbolizado pelo lençol ora assentado. 

O lençol que, desarrumado, revela a paixão; e que, assentado, a calmaria. Assim, o cenário, a cama, é a metáfora do mar, ora calmo, ora revolto.

Existem mais detalhes a observar, de ordem técnica: as rimas ricas verbo-substantivo, adjetivo-substantivo. O estado anímico do "eu lírico", da tormenta sensual ao torpor pós-enlace. 

Mas, sobretudo, a capacidade com que esta trova torna o leitor um cúmplice da cena amorosa, da libido dos envolvidos.

Quando falei anteriormente da maturidade de Antonio de Oliveira, como poeta e trovador, minha referência é, na realidade um convite a que você, leitor, pesquise os conteúdos de sites sobre trova e trovadores e busque outras facetas do Antonio: o poeta preciso, lírico, filosófico (dos melhores de todos os tempos), reflexivo e sensível à vida e de olhar detalhista e envolvente em sua poesia.

Sua benção, meu irmão!

terça-feira, 3 de março de 2020

Uma trova por vez... (3)



 
Manoel Cavalcante, o cidadão da foto, é Magnífico Trovador, título conferido pela União Brasileira de Trovadores de Nova Friburgo, desde 2019. E é de 2019 esta foto, tirada na cidade que o consagrou.

Manoel é, seguramente, uma das maiores revelações dos últimos anos entre os trovadores. Além disto, é cordelista, sonetista, ou seja, um poeta de mão cheia.

Para tornar-se Magnífico Trovador, é necessário sagrar-se vencedor nos Jogos Florais de Nova Friburgo por três anos consecutivos e, em 2019, Manoel conquistou sua terceira vitória consecutiva, colhendo a honraria.

Em 2017, a primeira das três vitórias foi um 2º lugar no concurso nacional, com a seguinte trova, no tema "Pausa":


É pausa... Sinal fechado...
e, para o artista de rua, 
a vida é um simples trocado
que ele trocou pela sua!


É fácil fazer previsões daquilo que já aconteceu, mas lá vai a minha...

Esta trova estava fadada a ser uma das vencedoras.

E, neste particular, quero falar do "TEMA", em concursos de poesia e, mais especificamente, em concursos de trova. 

Como é usual, em termos de trova, em que a concisão é uma das chaves da confecção do poema (com 4 versos apenas), o tema por vezes torna-se apenas uma palavra inserida, forçosamente até, em um ou mais dos versos.

Sim. 

Acontece bastante de o "tema" não ser a alma da trova, mas, apenas, uma palavra solta dentro dela.

Manoel Cavalcante, na trova acima, não só fez da "pausa" o mote a impulsionar a cena que descreve, como usou as pausas para direcionar o leitor da realidade exterior que descreveu, para a verdade interior do objeto de análise, para dentro da alma do artista que descreve.

Há duas reticências no primeiro verso, uma delas depois da palavra "pausa" e a outra após a expressão "Sinal fechado". Ou seja, não só o narrador da cena foi retirado de seu estado inercial (provavelmente dirigindo um veículo), como também o leitor foi obrigado a pausar seus pensamentos e dirigir seu olhar (interior) ao artista de rua que, naquele efêmero instante, trocou sua vida por um trocado, no exercício de sua arte (de duração infinitamente pequena, mas que o reduz, e à sua vida, a um mero trocado - e aqui uma observação: a dualidade da  palavra "trocado", uma como sinônimo de valor ínfimo, um dinheirinho; outra como locução do verbo trocar.

Na trova, a própria vida do artista, resume-se àquele trocado, conseguido numa pausa da vida dos que passam.

E quantos artistas, neste país que não os valoriza, trocam sua arte e sua vida por meros trocados, ou pelo aplauso silente das pausas nas vidas dos que por eles passam?

segunda-feira, 2 de março de 2020

Uma trova por vez... (2)


No Jubileu de Diamante dos Jogos Florais de Nova Friburgo, no ano passado (2019), o tema no qual concorreram os Magníficos Trovadores foi "Saudade" e a trova que recebeu o primeiro lugar, das isoladas, foi a seguinte, do amigo Pedro Melo:


A saudade não faz nada...
Apenas chora e resiste...
Acorda de madrugada
e escreve esta trova triste...

(Pedro Melo)

Esta trova primorosa, que não à toa (imensamente por mérito do autor e da comissão julgadora) foi escolhida a melhor trova isolada entre todas dos conjuntos concorrentes, encanta pela simplicidade na disposição, na apresentação que poeta faz de uma cena que imprime na mente do leitor, mas carrega em si uma complexidade sublime.

O "eu lírico" iguala-se ao leitor no papel de observador, como se estivesse alheio os fatos que narra.

Não!

Usa, nos três primeiros versos, a figura da Prosopopeia, ou personificação: atribui à saudade características, atitudes de um ser humano (no caso, dele mesmo, daí a genialidade), já que ela "não faz nada", "chora e resiste", "acorda" e, por fim, "escreve".

Faz um jogo de espelhos...

Ora, claro que não é a saudade que promove as ações indicadas pelos verbos, é o "eu lírico", que é um poeta e, neste detalhe, o de ser um poeta, eis a metalinguagem: a saudade escreve "esta trova triste". É a trova falando da trova.

O poeta e a saudade são uma só persona: vencida, triste e mesmo assim resistente, que persiste no enfrentamento do sofrer causado pela perda... escrevendo um poema, uma trova que revela seu estado anímico, tendo esperança... Afinal, ele "resiste".
 
É a magia da síntese, que a trova proporciona. Pequena no tamanho e infinita no sentido.

Sua bênção amigo e irmão Pedro Melo! 
 

Uma trova por vez... (1)



De volta, após alguns anos, às postagens neste blog, vou recomeçar honrando o nome dele - Trovas e Companhia:

A trova  a seguir foi vencedora, como parte de um conjunto de 5 (cinco) trovas, nos Jogos Florais de Nova Friburgo, no ano de 2017. 


O tema foi "Exemplo" e o conjunto obteve o 2º lugar. Já a trova recebeu, isoladamente, o 1º lugar.

A abordagem foi lírica e a trova brinca com a metalinguagem, ao citar a chamada "rima interna", que é a rima que acontece no interior do poema e não no final de um verso. Vamos à trova e, ao final, mais algumas considerações:


Escondida e quase eterna,
tua vida, em minha vida,
é exemplo de rima interna
que passa despercebida!
 
 (Sérgio Ferreira da Silva)

A rima interna, no caso desta trova ocorre com a primeira palavra "vida" inserida no 2º verso, que rima com a palavra "escondida", que abre a trova, e com o final do 2º e 4º versos. Lembrando que rima é a coincidência de sons.

Quanto ao sentido do poema, a "rima interna" refere-se ao sentimento latente do "eu lírico", de um certo platonismo ou, também,  de um sentimento consolidado entre pessoas que, sem demonstrações efusivas de sentimento, compartilham a vida.

É isto!

Para qualquer outra interpretação ou observação, use o campo de comentários.

Até a próxima!

quarta-feira, 10 de junho de 2015

POEMA PARA COLORIR



Poema para colorir



Inspirado por esta verdadeira tsunami de publicações para colorir, destinada ao público adulto, em que, geralmente, não há uma palavra sequer, além daquelas dispostas na capa e contracapa, resolvi escrever um poema que falasse, principalmente, daqueles momentos em que a vida transcorre em preto e branco, mas que são excelentes oportunidades de colorização.

A Leila, que leciona Arte,  abraçou a ideia e distribuiu entre seus alunos do ensino fundamental (5º ao 9º anos), cópias do poema para leitura, reflexão e prática de pintura.

Os trabalhos integrarão os portfólios de cada aluno, que serão expostos ao final do curso, juntamente com as demais atividades desenvolvidas pelas turmas.

Outras cópias foram distribuídas a crianças de nosso convívio. Duas delas mostraram o poema a suas professoras de português, que também irão distribuí-las, por sua própria iniciativa, entre seus alunos.

Hoje, pelo menos 500 cópias já foram distribuídas, o que é motivo de alegria.

Abaixo, disponibilizo o poema para cópia e colorização livres e espero, sinceramente, que ele possa colorir os seus momentos.


(Sérgio Ferreira da Silva)



Clique na imagem para ampliar ou imprimir.
















sábado, 18 de janeiro de 2014

Em tons de nostalgia, de Thereza Costa Val: memórias feito sonetos.


Um tanto quanto tardiamente, já que o livro me chegou às mãos em fevereiro de 2013, quero tecer alguns comentários acerca do interessante "Em tons de nostalgia", livro de sonetos da Escritora mineira Thereza Costa Val. A palavra Escritora vai, mesmo, em maiúscula, por merecimento: pedagoga, autora de livros didáticos e infantis, trovadora, sonetista e, mais recentemente, memorialista. Aliás, nesta última condição, acaba de lançar um livro de memórias: "Enquanto eu me lembro".

Em prosa, o Brasil tem certa tradição de memórias, com destaque para os clássicos "Memórias de um sargento de milícias", de Manuel Antônio de Almeida e "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, além da menos lida, mas não menos preciosa, "Memórias sentimentais de João Miramar", de Oswald de Andrade. Ficcionais as primeiras e um misto de fato e ficção a última.

Em poesia, o fenômeno, aparentemente, é mais frequente, porque o poeta, no mínimo, vale-se de suas memórias emocionais para o trabalho da palavra. Fernando Pessoa, com a complexidade que sempre lhe foi própria, teorizou sobre o sensacionismo, em que dispunha, numa análise muito simplista de minha parte, sobre o trabalho poético como resultado do sentir racionalizado, do sentimento introjetado e exteriorizado somente após uma profunda reflexão do poeta. Ou seja, os poetas, em geral, reciclam suas memórias, antes de compartilhá-las em versos. Uns racionalmente, outros não.

O que diferencia, então, uns e outros, é, grosso modo, a existência de um projeto poético. Há aqueles que, primeiro, estabelecem o projeto e, a partir dele, começam a lançar no papel os poemas e versos que os compõem; de outra parte, há aqueles que trabalham o verso, os poemas e o conjunto de sua própria obra, a partir de uma visão diferenciada, que pode dar início e forma ao projeto, com foco em determinado assunto ou sentimento.

É desta segunda maneira que vejo a construção de "Em tons de Nostalgia", de Thereza Costa Val.

Os teóricos entendem que a Nostalgia é muito mais ampla do que a Saudade. Esta última, quase uma musa, é a companheira de quarto dos trovadores; é, em suma,  um revival de momentos passados, de alegria, de inocência, do dizer "naquele tempo eu era feliz ao seu lado". Já a nostalgia refere-se às perdas sentimentais e materiais, além de reforçar a ideia da inexorabilidade do tempo e das perdas que ele impõe. Em suma: a saudade traz e a nostalgia mostra o que nos foi tirado, de maneira mais profunda.

A escolha de Thereza pelo título, então, não foi aleatória e é dessa intenção que passo a falar, valendo-me de seus versos. Vejamos, então, o soneto
PERFUMES


A tudo que marcou a minha vida
parece que um perfume está ligado:
registro uma fragrância definida
de um tempo... um caso... e alguém que foi amado...

Se acaso um certo aroma me convida,
retorno com saudade ao meu passado
e, nessa volta, sigo comovida
o apelo do sentido despertado.

Mistério que não tem explicação:
perfumes trago vivos na memória
que ativam meus sentidos e a emoção.

Tão doce vem o aroma lá da infância!
Mas foi o amor perdido em minha história
que mais gravou em mim sua fragrância...


Não foi por acaso, leitor, que este soneto recebeu o 1° lugar no concurso Brasil dos Reis, um dos mais tradicionais do Brasil. O tema era "perfume".

"Era" perfume, porque Thereza Costa Val transformou o soneto numa descrição sensorial da nostalgia. A descrição é tão intensa que é possível identificar todos os sentidos humanos no soneto: o primeiro, óbvio, o olfato, na associação dos perfumes às lembranças nostálgicas; a visão, nos flashes de memória; o paladar, quando refere o doce "aroma lá da infância"; o tato na utilização de verbos como "marcou" e "gravou"; e, por fim, o não incluso, mas indispensável sentido da audição, presente a cada leitura do soneto. Simplesmente magistral.

A nostalgia pulsa no soneto e é o seu fecho de ouro. A saudade perpassa os dez primeiros versos, expondo o mecanismo mnemônico, o gatilho, que dispara a materialização do passado do eu lírico, quando ocorre a associação do aroma ao fato passado, ao caso e a alguém. Nos dois últimos versos, a nostalgia impõe-se à saudade, porque o amor perdido é que grava em sua memória sentimental a fragrância mais marcante, como se a poeta dissesse: "Eis minha alma...".


Caro leitor, o espaço limitado de uma postagem num blog é, de certa forma, um limão: aquele fruto azedo, intragável e ácido. Porém, como é costume de nossa gente, é possível, com um pouco de água e açúcar, transformá-lo em uma refrescante limonada. Ou, para os mais afeitos e saudáveis, numa bela caipirinha, como me lembrou recentemente uma grande amiga portuguesa.

O limão, no caso presente, é o espaço limitado e a limonada, ou caipirinha, é a obrigação de tornar uma pequena resenha em um incentivo à leitura. Há muitos textos de Thereza Costa Val na internet e há seus livros. O cardápio é enorme. Escolha, leitor, o que fazer, na certeza de que vai encontrar boa leitura... e eu me alegro de cumprir uma certa missão de falar de boa poesia, de bons poetas e de pessoas admiráveis como Thereza Costa Val. Sua benção, querida!



quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

RÉQUIEM PARA UM AMIGO (CÉLIO BRANCO)



RÉQUIEM PARA UM AMIGO
(em memória de Célio Branco)
Ontem, aparentemente, morreu um guerreiro.
Era Natal.
 Justamente o dia em que pessoas de vários credos celebram o renascimento (do Cristo, da Fé e da Esperança).
Justamente no Natal.
Ao seu funeral acorreram muitos de seus amigos, até os mais distantes.
Ao lado de seu corpo, entre lágrimas, alguns sorrisos.
 Era orgulho.
Orgulho da mera lembrança de sua garra, do seu sorriso, do seu respeito e cuidado com crianças e anciãos. Da alegria em poder ajudar: “pode contar comigo”. Da coragem, do reconhecimento do erro, da voz marcante, da risada contagiante. Do falar com os olhos e o coração.
Era um homem comum? Não. Era um homem simples, de uma grandeza incomum.
Um dos significados de seu nome é “o que vem do céu”.
E sua luta, nos últimos tempos, tornou-se infinda. Era hora de repousar, como diriam os latinos “requiem aeternam dona eis”, ou seja, dai-lhes o repouso eterno.
Hora de repousar, amigo.
E no início, quando disse que ele partira apenas aparentemente, eu refiro os pensamentos daqueles que o viram descer à terra: ele permanece vivo,  naquilo que compartilhou com cada um dos seus inúmeros amigos e com sua família.
Afinal, não é todo dia que podemos ver alguém sendo aplaudido depois de partir...
(Sérgio Ferreira da Silva, em 26 de dezembro de 2013)


domingo, 1 de dezembro de 2013

Fluxograma Cotidiano

 
 
Este poema tem quase 10 anos e é uma brincadeira com as figuras padrão do programa Office, da Microsoft. Não foi publicado antes, porque não havia encontrado uma solução que permitisse manter sua forma original...
 
Só agora tive a brilhante ideia de transformá-lo em imagem.
 
Clique no poema para ampliá-lo!
 
 
 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

International Youth Service (IYS), o valor da amizade e as mãos de Teresa.

 
 
 
 
Em 1983 conheci, por intermédio de um colega estagiário da Caixa Econômica Federal (Júlio), uma Instituição finlandesa chamada International Youth Service, que promovia a correspondência entre jovens de mais de 100 países diferentes, entre eles o Brasil. Era simples: você preenchia um formulário, no qual respondia várias perguntas sobre interesses, grau de conhecimento de línguas estrangeiras, gostos e dados pessoais. A partir daí, após receber o formulário preenchido, o instituto cruzava os dados recebidos em seus computadores e elaborava uma lista de jovens de diversos países, com interesses comuns, com os quais você poderia trocar correspondência. Recebi nomes de pessoas da Itália, do Chile, da Inglaterra e de Portugal.
 
O instituto foi criado em 1952, em Turku, na Finlândia e foi extinto em 30 de Junho de 2008, posto que não podia fazer frente ao desenvolvimento da internet, das redes sociais e das facilidades do correio eletrônico.
 
As pessoas, em geral, atualmente, não escrevem cartas. As únicas cartas que costumam chegar às nossas caixas de correspondência, invariavelmente, são boletos bancários, avisos de eventuais faltas de pagamento dos boletos bancários, senhas, cartões de crédito, encomendas, cartões de natal de políticos, cartões de felicitações... de políticos, cardápios de pizzarias, churrascarias e lanchonetes, ou seja, cartas, mesmo, como se fazia até os anos 90 (e olhe lá!), são espécies em extinção.
 
Pois bem, como eu disse acima, recebi uma pequena lista de pessoas, para as quais pude enviar cartas e das quais recebi algumas, também.
 
Apenas uma dessas correspondências vingou: a que mantive por cinco anos, aproximadamente (entre 83 e 88),  com uma jovem portuguesa chamada Teresa. Neste período o Brasil caminhava para a democratização e progredia, a passos lentos, economicamente falando, embora permaneça carente em diversas áreas, ainda.
 
Portugal, por sua vez, entrava de vez para a Comunidade Econômica Europeia, ou, como escreveu  certa vez Teresa, a CEE é que talvez entrava em Portugal... Teresa intuiu, em seus relatos, diversos problemas que afetariam seu país no futuro, presente hoje.
 
Eu compartilhava com ela o início das Bandas Nacionais, como Legião Urbana, Titãs, Ira! e outras mais e ela me mandava folhetos contando sobre "Os Heróis do Mar".
 
Muitas cartas foram extraviadas nestes anos, e eu não sabia se por conta de minha atividade estudantil, voltada aos movimentos populares, ou pela ineficiência dos correios. O fato é que a correspondência parou.
 
Enfim, foram anos de mudanças importantes em nossos países e em nossas vidas. Devo a ela, sem sombra de dúvida, o desenvolvimento e a fluidez de minha escrita. Sempre que escrevo, hoje, estabeleço a figura do leitor, do interlocutor interessado e cúmplice. Sei que haverá, do outro lado da escrita, alguém que não é passivo, que vivencia meus relatos, concordando ou discordando, mas sempre acrescentando suas próprias experiências ao meu texto. A existência do texto pressupõe respeito entre os interlocutores, sejam eles identificáveis, ou não.
 
A parte tudo isto e muito mais, das experiências e anseios que compartilhamos, da correspondência nasceu uma grande amizade, daquelas amizades eternas da infância e adolescência, que levamos por toda a vida, estejamos perto ou distantes.
 
Todas as cartas foram guardadas. A amizade também. Intacta.
 
Porém, assim como a internet acabou com o IYS, ela também poderia trazer novamente as palavras que foram caladas por 25 anos...
 
Procurei muito, sem sucesso. A Leila também. E foi dela a iniciativa que selou o final da procura: "Sérgio, mandei mensagens para várias Teresas no Facebook, todas de Portugal e com o mesmo sobrenome dela... vou mostrar as fotos para você!"
 
Eu olhei as fotos e não reconheci nenhuma delas. Frustante. Embora uma, em especial, tenha adicionado a Leila. Ora, veja!
 
Era véspera de feriado e a Leila deu outra sugestão: pegar as cartas guardadas para, quem sabe, encontrar alguma pista que nos levasse a encontrá-la.
 
Naquele dia, lendo todas elas, fui dormir por volta de 04:00h da manhã, mas havia uma pista: uma amiga, de nome Cristina, que frequentou a mesma escola que ela e que cantava o Fado! É que, em uma das cartas, Teresa havia descrito a amiga: morena, alta e de olhos verdes.
 
Nova pesquisa na internet, até que, no Youtube, um vídeo de uma cantora chamada Cristina me deu praticamente a certeza de haver encontrado a amiga de Teresa, Cristina Santos...
 
 
 
Pois bem, amigos, pesquisa vai, pesquisa vem, consegui um contato com Cristina, que, imediatamente, respondeu ser, sim, a amiga dos tempos de escola. Infelizmente, ela havia perdido contato com Teresa, mas tinha contato com outras amigas comuns e tentaria me ajudar.
 
No dia seguinte, toda feliz, Cristina me disse que havia falado por telefone com Teresa e, finalmente, pudemos restabelecer o contato interrompido, por vídeo chamada (Skype), num momento de muita emoção e alegria, em que falamos (eu e minha esposa Sherlock Leila) e conhecemos os novos membros das famílias, nossos filhos. 
 
Sempre considerei a amizade um dos maiores valores que a vida nos proporciona, agora mais ainda. Numa das fotos que tenho de Teresa, as colegas de escola a fotografaram no momento em que escrevia uma carta, não sei se para mim, ou para sua família, que se encontrava distante, mas acho que esta foto, aliás, um pequeno detalhe dela, sintetiza toda esta postagem e com ela termino esta crônica-homenagem...
 
 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

POEMA AUTOEXPLICATIVO

 
 
 
Poema[1] Autoexplicativo[2][3][4][5][6][7][8][9]

 


  

Sérgio Ferreira da Silva[11]





[1] Poema, sim: sou poeta!
[2] Autoexplicativo, sem hífen, dado que o prefixo termina em vogal diferente da vogal inicial do segundo elemento­.
[3] Você, leitor não precisará “entender o poema”... O poeta não é um ser supremo, senhor das emoções e das palavras. Não é senhor nem do poema: poema publicado, poema perdido! Interprete da maneira que quiser, ou que não quiser. Ele é seu! E é autoexplicativo.
[4] Não é preciso buscar referências externas, intertextualidades, alteridades... Busque em você mesmo aquilo que o poema lhe disser!
[5] Há uma possibilidade muitíssimo remota do “Poema Autoexplicativo”, no futuro, cair nas mãos de um (a) estudioso (a), de um (a) crítico (a) literário (a), ou de um blogueiro (a) com vocação para ambos. Não acredite no que ele/ela disser, por favor! Não que eu não admire o trabalho deles: o problema é que, ao dissecar um poema, há uma tendência natural de situá-lo no tempo, no espaço, na biografia do autor, em sua própria obra, ou em fatos e movimentos culturais em voga... Aí, um poema de 4, 6, 12, ou mais linhas rende 30 páginas de referências, reflexões, teses, críticas, para, por fim, cair na prova! E eu não quero uma legião de vestibulandos me odiando!
[6] Fruto de tantas análises, alguém um dia poderá dizer (então, digo eu): “Ah, o Poema Autoexplicativo é aquele poema que não diz nada!” É por aí, mesmo: não há nada no Poema Autoexplicativo.
[7] Mas, e as notas de rodapé? Hein? Hein? As notas de rodapé são a chave, como diriam os teóricos, de compreensão: eu adoro notas de rodapé! Sério. Graças ao Millôr Fernandes: ele reinventou as notas de rodapé, antes tão burocráticas e sufocantes. Limitativas. Impositivas e despóticas. Considero as notas a melhor oportunidade de estabelecer um diálogo realmente produtivo com o leitor.
[8] E, do diálogo, nasce o entendimento, pelo menos o meu entendimento do próprio ato de escrever e fazer poemas, que é exatamente o que estou fazendo agora.
[9] O Poema Autoexplicativo, na verdade, não é um poema. É um título (como você já percebeu), sem poema. Um título que, por si só, deveria ser vazio. Mas, note bem, quando um poeta escreve um poema, geralmente, cria o título por último. Feito um filho que só recebe o nome, que o seguirá por toda vida, após ser concebido, ou, o que é mais raro nos dias atuais, após nascer. Criei o título primeiro.
[10] O vazio, entre o título e o nome do autor, este, sim, é o poema.
[11] O poeta.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Serial Killer, o poema.

 
Serial Killer

 
Alguns medos
muitos sonhos

 
a inocência
a esperança

 
uma certa culpa
a fé na justiça

 
um pouco de saúde
milhares de bactérias

 
formigas e mosquitos
aranhas e moscas

 
metade de um copo
uma charada inteira

 
um bebê
um menino
um adolescente
um jovem

 
Guilty!
 
(Sérgio Ferreira da Silva)