segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Being Sérgio Bernardo


No filme "Quero ser John Malkovich", no original "Being John Malkovich", a personagem Craig Schwartz, vivida por John Cusack, após começar a trabalhar em um escritório que ocupa o 7° 1/2 andar de um edifício (aliás, aqui cabe uma observação: o andar tem metade do tamanho normal e as pessoas que nele trabalham, são obrigadas a andar curvadas, posto que o teto é baixo), encontra uma passagem secreta, que leva à mente do ator John Malkovich, onde pode permanecer por 15 minutos...

Depois de ler o livro "Asfalto" (lançado pelo selo OffFlip, em 2010), de Sérgio Bernardo, o leitor se vê tentado a, como insinua o título do filme em português, pensar: "Quero ser Sérgio Bernardo"!

Aliás, quem não gostaria de ter escrito...

"Seu sol de catadora,
luz encardida nas calçadas,
gira numa galaxia
de papelão e alumínio,

rendendo trocados
para a quentinha
comida fria
sobre a toalha do asfalto..."

(Cegueira, p. 17)

O título do filme, em inglês, como de praxe nas traduções de títulos de filmes no Brasil, é muito mais abrangente: (Being) "sendo" John Malkovich.

A parábola cinematográfica serve para ressaltar o talento e o estilo do autor.

"Asfalto" é um espetáculo poético, não no sentido festivo do termo, mas por sua grandiosidade, pela capacidade que o livro tem de fomentar, no espírito do leitor, uma profunda e angustiante reflexão sobre o sofrimento e a injustiça que acompanha aqueles que fazem do asfalto sua mesa de refeições, sua cama, sua sala de estar. Mas não é só isso: asfalto também fala dos seres que por ele transitam e que, no mais das vezes acostumaram-se com as imagens dantescas que ele lhes proporciona, como no poema Incompreensão (p. 31):

"Os bons às vezes caminham entre eles,
o céu já lhes foi prometido.
Eles porém ainda não entendem,
com pele cosida aos ossos,
não sabem de paraísos além
de galinha na canja
ou goiabada..."

"Asfalto" talvez seja um retrato poético da chamada "Banalização da Violência", primorosamente discutida por Hannah Arendt, ou seja, as condições precárias de nossa população de rua refletem a violência em estado puro, mantida e financiada pela autoridade do Estado e pela divisão das castas sociais. A vida dos não-sujeitos-de-direito não tem a mínima importância...

"A carne dele é uma sílaba
no conto da cidade,
esconde-se na fenda
de qualquer viaduto.

Um tiro que o atinja
não será ouvido
dentro da música
do dia..."

(Figurante, p. 26)

Ler "Asfalto" podendo ver a paisagem urbana através da visão e dos demais sentidos de Sérgio Bernardo, principalmente aquele sexto sentido tão comum aos poetas, não deve despertar a vontade "Quero ser Sérgio Bernardo". Caso o leitor esteja preparado para ver com os olhos da alma, "Asfalto" será o passaporte carimbado para que, criticamente, por quinze minutos que seja, o leitor deixe de ser o leitor (curvado sob um teto baixo, como os companheiros de trabalho de Cusack) e torne-se o próprio poeta, "being" Sérgio Bernardo!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Cascalhos e Pepitas - José Antônio de Freitas

O Dicionário Aurélio, em sua versão eletrônica, enumera cinco definições para a palavra (s.m.) "garimpeiro". Interessam, para essa postagem, a primeira e a quinta:

"1. Aquele que anda à cata de metais e pedras preciosas.
2...
3...
4...
5. Explorador de preciosidades literárias ou linguísticas."

José Antonio de Freitas, trovador da cidade de Pitangui/MG, em 2008, lançou "Cascalhos e Pepitas", reunião de 100 trovas de sua lavra. O livro foi prefaciado por Selma Patti Spinelli, Presidente (a) da Seção de São Paulo da UBT.


Mas, qual a razão do título? O autor explica, em uma trova...

Garimpo a ideia bonita
nestes versos que componho
e cada trova é pepita
na bateia do meu sonho!

E o seu livro é isto, um livro de garimpeiro, mas um garimpeiro das palavras, do achado literário, que nos faz imitá-lo, em busca das preciosidades que imprimiu no papel. Não é preciso ir muito longe para encontrar-mos nossas "pepitas"...

Se é o amor que te conduz,
ama sempre sem disfarce,
pois quem acende uma luz
é o primeiro a iluminar-se.

E assim, de trova em trova, José Antonio de Freitas ilumina nosso caminho e inunda-se de luz! Se você for um garimpeiro persistente, do primeiro ou do segundo tipo definidos no "Aurélio", poderá encontrar outras pepitas, fora do livro, mas de autoria do mesmo garimpeiro...

Exagerando em cuidados
por sabê-la primorosa,
os espinhos são soldados
na defesa de uma rosa.

Acredito que, depois desta postagem, saímos, eu e você, mais ricos de nossa garimpagem!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Meu Caderno de Trovas - João Costa


Dentro em breve, com os diversos incentivos aprovados pelo Governo (leia-se diminuição da carga tributária), o Brasil, um dos maiores mercados de produtos digitais do mundo, será invadido pela produção dos chamados iPads, equipamentos de formato semelhante a um livro (às vezes até mais leves do que este).

O livro impresso, então, será e
xtinto? Acredito que não, num futuro próximo...

Publicar um livro pelo sistema convencional é demorado, implica em diversas etapas de produção, registro, impressão, revisão etc. Mas, os trovadores sempre conseguem d
riblar as dificuldades e dão provas de que, se depender deles, o livro não se extinguirá tão cedo.



João Costa, radicado em Saquarema (belíssima cidade costeira do Estado do Rio de Janeiro), resolveu produzir artesanalmente sua poesia. O resultado é o livro “Meu Caderno de Trovas”, reunião de 100 magníficas trovas de sua lavra, em cuja essência delineiam-se...

Imagens...
“A noite é perfeita e bela,
a lua encanta e seduz,
tecendo em nossa janela
uma cortina de luz.

De exuberância suprema,
que nos encanta e extasia,
cada alvorada é um poema
que Deus compõe todo dia.

O tempo interior...
Quero um relógio, querida,
cujo mágico processo,
atrase a tua partida
e abrevie o teu regresso.

e a fraternidade!
Para quem o bem semeia,
praticando a caridade,
a felicidade alheia
é a própria felicidade.

Na simplicidade da última trova, por exemplo, notem a ocorrência de rimas internas (quem/bem) e rimas cruzadas, do segundo ao quarto verso (caridade/felicidade/felicidade). Entalhes de puro ouro, num livro que se propõe “artesanal”: ars poetica.

Parabéns, irmão João Costa!

Cronologia de um poeta - Primeiros Versos


De 20 a 22 de maio de 2011, ocorreram os 52°s. Jogos Florais de Nova Friburgo. No hotel em que fiquei, também hospedou-se o trovador Antonio Carlos Rodrigues, nascido e residente na cidade de São Gonçalo/RJ, onde recebeu a merecida honra de tornar-se membro da Academia de Letras local.

Antônio Carlos, generosamente, me brindou com seu livro “Primeiros versos”, obra que veio a lume como registro da trajetória poética do autor, em seus primeiros tempos de poesia, posto que ele sempre organizou seus escritos (o que costuma ser raro entre os poetas) em ordem cronológica. Faz metalinguagem ao escrever...


“...os meus primeiros versos são em mim
ainda hoje, como divinal herança.
Momentos que não saem da lembrança,
eterna e linda flor em meu jardim...”


Publicado pela editora Virtual Books, “Primeiros Versos” transborda talento e alma e sela um compromisso com sua musa inspiradora...


“...Já foste a inspiração dessa minha arte
mais pura, mais singela e em toda parte
alegraste a existência deste asceta.

Meu coração agora pede, acusa,
para que sejas sempre a minha musa,
pois serei para sempre este teu poeta...”


Os Jogos Florais deste ano, em Friburgo, marcaram o primeiro encontro dos trovadores locais com seus admiradores de todo o país. Foi um encontro de emoções sucessivas e intensas... Antônio Carlos Rodrigues, com sua sensibilidade ímpar, foi o protagonista do mais emocionante momento de todos os Jogos Florais, justamente em seus final, como vencedor do concurso realizado nos três dias de jogos, cujo tema foi, muito a propósito, RENASCER... Eis a trova que fecha esta postagem, uma verdadeira chave de ouro:

O amanhã revelará
o renascer desse povo:
Nova Friburgo será
Nova Friburgo de novo!

(Antonio Carlos Rodrigues)

sábado, 30 de julho de 2011

Um varal digital

No livro de 1999, “Vertentes e evolução da literatura de cordel”, obra de Gonçalo Ferreira da Silva (belo sobrenome, o dele!), há um trecho dedicado às estrofes chamadas de Setilhas, conjunto de sete versos, com sete sílabas tônicas (redondilhas maiores). Neste trecho, o autor menciona que esta não era uma modalidade muito praticada nos primórdios da produção ”cordelística” que derivou dos cantadores nordestinos (que seguiam a tradição oral, por natureza).

Passados dez anos do registro de Silva, as ocorrências aumentaram, dada, inclusive a multiplicidade de meios (leia-se internet) para publicação de versos. A poesia, na era digital, encontrou campo fértil para multiplicar-se e passar por uma reinvenção, cujo verdadeiro alcance só será plenamente estudado, creio, em alguns anos. Assim, o cordel encontrou, no mundo digital, o seu “varal” mais extenso.

Este preâmbulo faz-se necessário para que eu possa comentar, aqui, o livro "Cantando ao som das setilhas”, presente recebido do irmão trovador Thalma Tavares.


Thalma é um dos sete autores do livro. Os demais são Antônio Augusto de Assis, Delcy Canalles, Prof. Garcia, Gislaine Canales, Arlindo Tadeu Hagen e José Lucas de Barros. Todos eles destacados trovadores brasileiros e que se propuseram a transformar em livro um “debate” que estabeleceram na Internet, por email.

A proposta é interessantíssima: o primeiro trovador compõe uma setilha e a envia por email ao segundo, que compõe a sua e a remete ao terceiro, até que a corrente chegue ao sétimo, que a envia ao primeiro, fazendo recomeçar o ciclo.

O esquema normal de rimas da setilha é o seguinte: (a) (b) (c) (b) (d) (d) (b) , ou seja, o primeiro e o terceiro versos não rimam; rimam entre si o segundo, quarto e sétimo, além do quinto e sexto. No livro, porém, a possibilidade de rimas foi ampliada, visto que os poetas, com genialidade, usaram a técnica do encadeamento (ou guirlanda, ou ciranda), fazendo o último verso da estrofe recebida rimar com o primeiro verso da próxima.

E conversaram, em versos, de 01 de Agosto a 22 de Novembro de 2009. Trinta e cinco estrofes cada um... E apresentaram-se, falaram do clima, saúde, política, morte, vida, anseios, esperanças, ou seja, fizeram o que melhor sabem: foram poetas.

Abaixo, transcrevo um trecho deste debate, ou “diálogo”, como mencionou a prefaciadora, Marina Bruna. Nas estrofes de n° 71 a 77, os poetas comentam a chegada da Primavera. Fica o registro!

"...71 - Zé Lucas

Minha vida em Pirangi
é fazer verso e sonhar,
conversar com as estrelas,
tomar banho de luar
e colher, durante o dia,
os retalhos de poesia
que a Lua deixa no mar.

72 - Gislaine

Por isto eu vivo a cantar,
na minha nova morada;
em meio ao mar e à montanha,
eu escuto a passarada,
que me acorda todo o dia
com seu chilrear de alegria,
com a voz do mar, mesclada.

73 - Prof. Garcia

Em cada manhã sagrada
pela mão do criador,
eu olho para o infinito
só vejo paz e esplendor;
não tem montanha nem mar,
mas minha vida é sonhar
fazendo versos de amor!

74 - Delcy

Como um voo de condor,
pelo céu das minhas rimas,
faço um passeio estonteante,
enfrentando quaisquer climas,
e, então, eu escrevo versos,
em poemas bem diversos
que, às vezes, dão obras primas!

75 - Assis

Se a natureza sublimas,
começa a alegrar-te então,
que ela está pronta e enfeitada
para a troca de estação.
É a grande festa das flores,
o espetáculo das cores,
lá fora e no coração.

76 - Tadeu

Quando o sol da inspiração
banha de luz e energia
no coração do poeta
por encanto, se inicia
um período multicor
e a estação,
seja qual for,
vira estação da Poesia!

77 - Thalma

Quanta luz, quanta energia
que a poesia libera
quando o poeta pressente
a vinda da primavera!...
E o poeta sentindo a brisa,
sonhos de paz realiza
e a inspiração prolifera..."

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Vida, verso e prosa de Antonio Augusto de Assis



Antonio Augusto de Assis, o A. A. de Assis, é um nome frequente em qualquer rol que se delineie entre os maiores expoentes do movimento trovadoresco brasileiro, tanto entre os poetas em atividade, quanto entre os que já se tornaram eternos (entenda-se "trovadoresco" não em sua ocorrência dicionarizada, pelo menos no "Aurélio", como adjetivo relativo aos trovadores e à trova medieval, mas à trova literária, elaborada hoje por poetas de todo o Brasil, Portugal e países lusófonos, além de disseminar-se com rapidez nos países de língua hispânica, na forma consagrada por Luiz Otávio).


Pois bem, no final de Maio deste ano recebi um exemplar do livro "Vida, verso e prosa", lançado pela Editora da Universidade Estadual de Maringá, em que o autor lecionou, até aposentar-se em 1997. Digo melhor: recebi um tesouro.


Assis conseguiu conciliar, em seu livro, árvore genealógica, biografia, produção poética, crônicas, contos de uma maneira magistral, entremeando seus relatos e impressões com amparo fotográfico, revelando, numa edição primorosa, o cuidado e o afeto pelo qual sua personalidade é destaque e motivo de orgulho entre os trovadores brasileiros.

Em "vida, verso e prosa" temos o Assis cronista que, na crônica "Francisco, o poeta", explica que "...Francisco vem há oitocentos anos tentando convencer a humanidade de que a alegria está nas coisas simples..."

Assis, que compartilha o sobrenome com o Francisco que exalta, é um dos maiores praticantes desta simplicidade. É autor da Missa em Trovas, que desde 1970 é celebrada em nosso país, geralmente em ocasiões de congraçamento de trovadores.

É autor de trovas de beleza ímpar e de humor requintado (que ele chama de brincantes), agregando valor às palavras...

A palavra acalma e instiga;
a palavra adoça e inflama.
- Com ela é que a gente briga;
com ela é que a gente ama!

Convido-os a partilhar
uma gostosa jantinha:
massa com frutos do mar,
ou seja, pão com sardinha...


E Hai Cais (seus triversos)...

Um pingo de luz
no topo do arranhacéu.
Brincando de estrela.


Em poucas linhas, um pouco do Assis e, abaixo, toda a sua simpatia, no traço de Jaime Pina da Silveira!


Sua benção, mestre!


Poemas para nunca mais


Este era um projeto antigo! Poesia livre, concreta, clássica, sonetos e trovas... A essência de minha produção poética de 1997 a 2010. É meu quarto livro pelo Clube de Autores, no qual pude me cercar das duas pessoas que mais me incentivaram durante todos estes anos na elaboração e publicação de meus textos: minha esposa, Leila Rodrigues (autora da capa "Liberdade", que é uma das obras de seu talento que mais gosto) e Antonio de Oliveira, amigo de infância e um dos grandes trovadores brasileiros, que assina o prefácio.

Para visualizar o livro no Clube de autores, clique aqui!

Trovas de Guardanapo


No dia 15 de Maio de 2009, minha filha, Laura, após receber uma trova "de presente" do trovador Campos Sales, sugeriu a elaboração de um livro que reunisse trovas escritas em guardanapos, costume cultivado há meio século, pelo menos, nas confraternizações dos milhares de concursos já realizados em nosso país. No dia seguinte, pusemos a idéia em prática e o resultado está nestas páginas... A capa foi feita por ela, em um guardanapo, no jantar de confraternização dos 50ºs Jogos Florais de Nova Friburgo (o Jubileu de Ouro da Trova Brasileira). O livro tem trovas de 60 trovadores, entre eles um venezulelano (Carlos Rodrigues Sanchez), que estavam presentes ao evento. Todas foram lidas no jantar. A publicação, mais uma vez é uma parceria deste escriba com o Clube de Autores e você pode ler as primeiras páginas do livro, incluindo o prefácio de José Ouverney, da UBT Pindamonhangaba e a apresentação, clicando no link abaixo.

Clique aqui para ler as primeiras páginas do livro!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Diários de Bordo (Crônicas)

Sábado (27 de Fevereiro de 2011), lancei meu segundo livro, também pelo Clube de Autores: Diários de Bordo - Crônicas de uma Suspensão". Abaixo, o texto de apresentação, a capa (A redoma), desenho de minha filha, a Laura e o link:

"Coletânea de crônicas publicadas nos fóruns de discussão da ADVFN (www.advfn.com) sobre a empresa AGRENCO LTD., antes, durante e após a suspensão das operações pela CVM. Originalmente, os Diários de Bordo eram postados como "resumos" de ocorrências relacionadas às variações de cotação das BDRs da companhia, negociadas na Bolsa de Valores, sob o código AGEN11. Após alguém chamar o forista Zhemarks de "capitão", o autor teve a ideia de adaptar os fatos do dia às situações e personagens da série Star Trek. Com o tempo, e principalmente após a suspensão das operações, que durou mais de 11 meses, novos personagens passaram a integrar a saga, agora também relacionados à série Star Wars. Assim, Zhemarks tornou-se Capitão Zhé Kirk e Edgar Salomão Mansur, o EDSALO KENOBI. O valor da cotação, por exemplo, R$.2,89, era chamado de setor (espacial) dois ponto oitenta e nove. Acompanhe a saga e seus desdobramentos pelo viés do humor, do mito e do imaginário coletivo, onde realidade e ficção são o pano de fundo para o relato de uma história de superação, união e perseverança. Colaboraram com a edição os foristas TANTEI, ANTONIONF, PEDREIRO, ZHÉMARKS, BHÊ VIEIRA, EDSALO e PETR4USER."





sábado, 5 de fevereiro de 2011

Matéria sobre o projeto "Pão e Poesia"

Descobri hoje um texto interessante, de um jornalista mineiro, que registra alguns aspectos do Projeto Pão e Poesia, do qual participei em 2009/2010. Vamos a ele!


Pão e poesiaA revolução trará não somente direito ao pão, mas também à poesia”
Trotsky
Marcos Fabrício Lopes da Silva*

Graças aos nutricionistas extraordinários, conhecemos uma dieta saudável à base de pão e poesia. O contista cubano Jorge Onélio Cardozo tinha mesmo razão: “o ser humano tem duas grandes fomes, a de pão e a de beleza; a primeira é saciável; a segunda, infindável”. Nesse sentido, o nosso cardápio existencial foi muito bem apresentado pelos Titãs, na canção Comida (1987): “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Ou seja, o indivíduo precisa sustentar o corpo com o pão e a alma com a poesia para zelar pelo seu equilíbrio.

Diante das “duas grandes fomes” humanas, o projeto “Pão e Poesia: em qualquer esquina, em qualquer padaria”, idealizado pelo poeta mineiro Diovani Mendonça, desponta na cena cultural com a apropriação da embalagem utilizada por padarias para divulgar a arte poética ao público, vinculando à necessidade de atender “a fome de pão” dos consumidores o prazer destes em poderem saciar “a fome de beleza”, a partir do alimento poético. Contando somente com a iniciativa voluntária dos seus colaboradores, o “Pão e Poesia” ganhou as ruas em 2008, com a distribuição gratuita de 300 mil embalagens ecologicamente confeccionadas às panificadoras da periferia da Região Metropolitana de Belo Horizonte, visando facilitar o acesso público às obras artísticas e divulgá-las em um suporte bastante alternativo.

No ano passado, o “Pão e Poesia” recebeu com distinção e louvor o 1º lugar no Prêmio Pontos de Mídia Livre, na categoria local/estadual, oferecido pelo Ministério da Cultura. Além do empenho voluntário, a segunda edição do projeto, referente a 2009, foi viabilizada pela premiação e pela parceria com o IAP – Instituto Aprender Profissionalizar. 120 mil embalagens já foram distribuídas às panificadoras, tendo em vista as intenções que acompanham o projeto desde o seu início. Além de reconhecer o trabalho de autores já consagrados, o “Pão e Poesia” abre espaço para novos escritores (que estão à margem da sociedade e das grandes editoras), desperta nas pessoas o gosto pela leitura e o interesse pela arte poética, ampliando o acesso do público a ela.

Na versão 2009, os saquinhos de papel trazem as obras dos artistas plásticos Eduardo Vilela, Gilberto de Abreu, Guido Boletti, Iara Abreu e Jair Leal, além dos poemas de Adriana Versiani, Alice Ruiz, Arnaldo Antunes, Fabrício Marques, José Ouverney, Marcelo Dolabela, Paulo Franchetti, Paulo Urban, Sebastião Nunes, Wilmar Silva, entre outros. Somam-se aos trabalhos dos 32 poetas/artistas plásticos convidados e homenageados, 108 poemas selecionados por meio de inscrição via internet, nas categorias Haicai, Trova, Soneto e Verso Livre.

As embalagens também participam da exposição itinerante “Pão e Poesia na Escola”, podendo ser oferecidas aos colégios interessados e/ou ampliadas em banners a título de mostra cultural. Aproveita-se o contato com as instituições de ensino para a promoção de oficinas e bate-papos sobre poesia e arte. Esse conjunto de ações visa contribuir para a formação de poetas, leitores e educadores poéticos. Várias escolas públicas das cidades de Contagem, Betim, Esmeraldas, Lagoa Santa, Belo Horizonte, Sete Lagoas e Cotia (SP), foram atendidas pelo programa, que já contemplou cerca de 10 mil estudantes.

A questão educacional também se faz presente nos achados poéticos do “Pão e Poesia”. Neste ano, temos nas trovas de José Ouverney a contribuição decisiva da educação para o desenvolvimento nacional – “Quando a base é a educação/na visão de um governante,/não há no mundo Nação/que não cresça e se agigante!” – e a valorização do agricultor que, mesmo com a escolaridade prejudicada pela extenuante jornada de trabalho no campo, se destaca como produtor de alimentos e de riqueza para o país – “Na roça não tive estudo/mas fiz – calejando as mãos -/dessa escassez de canudo/esta fartura de grãos”.

No haicai de Luiz Carlos Lopes Dinuci, subverte-se a noção clássica de obra como resultado de uma arquitetura textual formalmente acabada para que seja destacada uma noção de processo expressivo aberto, inacabado e constituído por vestígios e restos que protagonizam a construção simbólica do sujeito poético: “Eu não tenho obra./Tudo o que tenho/é o que me sobra”. Clevane Pessoa bebe da fonte oriental para expressar com sutileza e profundidade a importância de se respeitar as diferenças, tendo em vista o aperfeiçoamento da convivência humana: “Força dos opostos/Espirais da eternidade/Yin e Yang: você e eu”.

O soneto “Nostalgia versus Modernidade”, de Sérgio Ferreira da Silva, traz uma narrativa satírica de tom fabular. Em um shopping center, a pobre raposa e a esnobe galinha se encontram. Ao cumprimentar a galinha, demonstrando satisfação por revê-la em tão radiante alegria, a raposa acaba sendo tratada com desdém. Em resposta à declaração arrogante dada pela galinha, que quis se diferenciar pelo status acadêmico e financeiro – “Fiz faculdade e muita economia!” –, a raposa abocanha a sujeita petulante.
No contexto educacional, destaca-se também o poema “Separação de sílabas”, feito, em verso livre, por Lasana Lukata. Assim como se dá com as palavras e a desintegração destas em sílabas, a história da família do eu-lírico foi marcada inicialmente pela união e depois pela separação de seus membros. Vejamos: “na sala de aula/quando a professora perguntava/como era a minha família/eu dizia que era um tritongo/havia cigarra/dançávamos jongo/mas a mãe se foi/a cigarra morreu/a dança acabou/a tristeza invadiu/meu pai e a mim/e viramos ditongo/mas veio a madrasta/que teve três filhos/me jogou num hiato/e fiquei feito um i/em ICARA-í”.
.
* Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Doutorando e mestre em Estudos Literários/Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG.

sábado, 9 de outubro de 2010

A bienal, os urubus e o vão.



Domingo passado fui, pela primeira vez nesta edição, à 29º Bienal de Arte de São Paulo. Tenho feito isso desde 1984 e costumo fazer duas ou três visitas em cada edição. Já virou um hábito. Ao longo dos anos, vi muitas obras interessantíssimas, frutos da criatividade, do talento, do protesto, e de tudo o que motiva os espíritos indomáveis dos artistas. Procuro não interpretar o que vejo, porque os sentidos se perdem em meio a tantas obras (na casa das centenas). Todo ano, no entanto, a mídia chama a atenção para alguma ou algumas obras específicas. Esse ano não foi diferente: a série Inimigos, do Gil Vicente e Bandeira Branca, de Nuno Ramos, são as vedetes. Na primeira, o artista faz autorretratos em que se apresenta apontando armas para personalidades da política, como a da foto abaixo...


O autor, como algoz de Mahmoud Ahmadinejad (Presidente do Irã)


Na segunda, Nuno Ramos trouxe urubus de cabeça amarela, do nordeste do país e deixou-os "livres" sobre estruturas de metal, dispostas no vão livre do pavilhão. Ambas as obras intrigam: a primeira, porque o artista externa o que parece ser o resultado de uma fúria coletiva, apontando armas para aqueles que personificam algum tipo de opressão ou ideologia perversa; na segunda, por estarmos acostumados a ver urubus em São Paulo, próximos a áreas verdes, rios poluídos, lixões, etc., mas, não para vê-los em um espaço restrito, por mais amplo que seja. A ligação que estabelecemos entre urubus e matéria em decomposição talvez seja o paralelo que o artista queira fazer entre um novo modelo de arte que propõe e aqueles conceitos que trazemos do senso comum. Será que, para ele, a arte, como conceito, é matéria morta? Talvez. Fiz alguns registros da obra Bandeira Branca e o que mais me agradou foi o da foto abaixo, em que os urubus aparentemente observam os visitantes.

Os urubus de cabeça amarela, do alto de sua estrutura, "urubuservando"...


Os urubus voltaram, ontem, para seu habitat, uma reserva florestal. Ficaram o vão, a estrutura, a Bienal e uma sensação estranha, pelo menos em mim, que talvez seja o mote desse poema, um tríptico, que não é um Hai Cai:


VÃO

Vão, os urubus,
ao vão da Bienal...
em vão!

(Sérgio Ferreira da Silva)


Detalhe: o Dicionário Aurélio traz 16 sentidos diferentes para a palavra "vão". Gosto de explorar isso. Outra coisa: achei o Gil Vicente um pouco violento! Hehehe!


"Vais virar comida de urubu!"

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Orgulho de ser andreense... BANDA LAGUNNA!

Nasci em Santo André/SP, em junho de 1963. Adoro minha cidade e me sinto muito bem trabalhando nela. No ano passado, a Leila me mostrou, na internet, umas músicas de uma banda chamada Lagunna. Gostei de cara!

Alguns dias depois, ela descobriu que a banda tocaria na Concha Acústica, em Santo André... Fomos. Quem deu uma canja? Andreas Kisser, do Sepultura! Showzão!


O Show na Concha Acústica, na Praça do Carmo, em Santo André.

Quer mais? A banda é de Santo André! Olha só o currículo dos caras...

"Formado em 1997 pelos amigos de faculdade Ivan e Nani, o Lagunna começou sua carreira tocando covers dos Beatles, Mutantes, Paralamas e Beach Boys em bares do ABC paulista. Na seqüência, juntamente com Léo e Eric, passam a tocar semanalmente em São Paulo. Aquecidos pelos shows, decidem que é o momento de investir em composições próprias. Nasce o primeiro álbum da banda, "Laguna". Em 2002, O LAGUNNA lança seu primeiro DVD, "Laguna ao Vivo", gravado no Teatro Municipal de Santo André. No show, gravam o primeiro clipe da banda com a música "Nada a Dizer", veiculado na MTV. Em 2003 são convidados para abrir o show do grupo inglês Deep Purple no ATL Hall (Claro Hall), no Rio de Janeiro. Tocando na inauguração dos estúdios da Kiss fm por 12 horas seguidas na Av. Paulista, conhecem Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, que se tornará um grande parceiro e produtor musical do grupo.


Andreas Kisser e sua guitarra de bolinhas! hehehe Toca muuuuuito!


2005: A parceria com Andreas Kisser resulta no segundo CD independente do grupo, "Intro". O álbum foi gravado nos estúdios Ferretti BH (estúdio onde o Skank produziu o álbum Cosmotron) com o apoio de Samuel Rosa, Henrique Portugal e Aroldo Ferretti. A mixagem ficou a cargo do técnico de som do Seputura Stanley Soares e masterização por Carlos Freitas do Estúdio Classic Master de São Paulo.
Para fechar o ano, gravam o segundo DVD independente da carreira, INTRO VIVO.

Em 2006, o Lagunna foi a banda convidada a representar o Brasil no maior festival de rock da América Latina, o Cosquin Rock, realizado em Cordoba na Argentina.

Ainda em 2006, abrem mais dois shows do Deep Purple em São Paulo, no Tom Brasil.
Após tocar inúmeras vezes em casas de show em São Paulo, eventos e festas, em 2007 a banda resolve parar para compor seu terceiro disco, "Só Hoje". Com a entrada do novo integrante Renato Zanuto, após dois anos é finalizado o álbum e, em 2009, mostram sua nova cara.

"Foram onze anos de muito trabalho, esforço e dedicação para chegarmos até aqui e oferecer músicas que nos completem, sonhando e acreditando num presente melhor. A hora é agora e nem o passado ou o futuro existem se não como reflexo do que sentimos e pensamos hoje, só hoje, enquanto o tempo corre por nossas veias em busca de sermos completos por nós mesmos. Só temos o hoje para viver e nada mais é, senão a única coisa que temos em mãos: a vida neste exato momento. Aproveite-a. Ao menos, só hoje."

Confira as músicas do novo disco do Lagunna, que foi gravado nos estúdios Nacena, Dynamic, Baeta e Tema. Masterizado no Sterling Sound (NYC – USA), produzido por Renato Zanuto e Maurício Cersosimo.
O terceiro disco da banda traz o amadurecimento conquistado nesses onze anos, através das mensagens contidas em suas letras e melodias, além dos timbres e sonoridade únicos presentes neste álbum."


Eles estão fazendo apresentações em São Bernardo do Campo, uma vez por semana, no Giramundo, um restaurante muto legal. Vale uma conferida!

Apresentação em São Bernardo do Campo, Restaurante Giramundo, em 19 de Setembro de 2010.


Ivan Volpe e um fã desconhecido... hehehehe

www.lagunna.com.br
www.myspace.com/lagunna

sábado, 12 de junho de 2010

Back to the past

Christopher Lloyd na famosa cena do relógio, em Back to The Future
Back to the past!

Quando, por fim, for o fim
e o silêncio gritar por mim,
irei voltar, sem pressa, ao que fui...

Irei, com vagar, feliz e seletivamente,
buscar lugares amenos.

Parnasianamente!

Meus olhos não serão românticos:
manterei uma distância segura,
para que eu não me veja
e não cause um abalo no espaço-tempo-contínuo,
como temia o Doutor Emmett Brown!

Não sou Marty Mcfly!

Meu eu-lírico, agora, escrevendo Back to the past!,
quer apenas resentir...
com um “s” só
mas se ressente, porque o sentimento não volta!

O que volta é vago e descontínuo.
Não há tempo, nem espaço e tudo é diferente.

Voltar é perder tempo: melhor é segurar outra vez a tua mão,
sentir o que houver para sentir, segurando tua mão,
olhando nos teus olhos
e, se pintar um clima,

beijar-te

e elogiar teu novo corte de cabelo!

Parar de pensar no fim...
Apenas um beijo,

agora!

Sérgio Ferreira da Silva

sábado, 5 de junho de 2010

Em homenagem a Gabriel Gonçalves

Em 2003, participei de um concurso de contos promovido pelos SESC Santo Amaro, que versava sobre as relações intergeracionais. Venci em minha categoria (adulto jovem - é, naquela época eu era um "adulto jovem" - hehehe!), uma das seis existentes, que englobavam todas as gerações. Em cada categoria foram 10 contos premiados, ou seja, 60 olhares diferentes sobre algum aspecto da vida. Muito interessante a iniciativa, que teve por patrona a Professora Doutora Nelly Novaes Coelho, das mãos de quem, orgulhosamente, recebi meu troféu. O conto vai abaixo. É só clicar na imagem e ampliar para ler.

É uma homenagem a um professor de português que tive em 1977/1978, na Escola Estadual Padre Aristides Greve, em Santo André. Hoje, o Gabriel é nome de escola, também em Santo André. Foi um professor inesquecível, pela alegria, entusiasmo e lições de vida que ministrava. Um mestre na mais ampla acepção da palavra.

O tema proposto para a minha categoria foi "Só depois de muito tempo fui entender aquele homem", que é um trecho de uma música do Ira!. Juntei minha saudade do Professor Gabriel ao meu gosto musical...

O professor Gabriel do conto é pura ficção! Acho que o verdadeiro gostaria da "redação"!

Sua benção, Gabriel Gonçalves!


sábado, 29 de maio de 2010

Seminário Unplugged!

(imagem by Lúcia Rabello)

Na quinta-feira, apresentamos um seminário cujo tema básico era o das cantigas de roda e das questões musicais ligadas à Literatura Infantil, nas visões populares, tradicionais e, também, na visão de poetas como Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes, do grupo musical Palavra Cantada, além de uma libreto (roteiro de ópera), chamado Poranduba, escrito pela Professora Lúcia Pimentel Góes, cuja capa é essa abaixo...




(Reprodução da Capa do exemplar utilizado no estudo)


Certo! Uma questão básica: falar sobre cantiga de roda e música em geral, vai demandar o uso de Power Point, para tornar a apresentação mais dinâmica, digamos... Certo? Errado!

Nossa decisão foi abolir qualquer possibilidade de uso de ferramental que fizesse uso de energia elétrica. Para isso foi necessário que cada um (cinco componentes) estudasse com profundidade os temas que fosse explanar, mais ainda: que houvesse um roteiro básico a seguir, para que os assuntos tivessem um "elo" digamos assim. O elo escolhido foi uma rua de nossa infância, uma rua que trouxesse lembranças agradáveis, para que nós pudessemos, junto com os colegas de turma, seguirmos um caminho idêntico, que começasse em algum lugar do passado de cada um e, por essa rua, chegasse aos nossos dias, voltando, ao final, à ancestralidade contida no texto da ópera Poranduba, relato de tradições, mitos e interação dos índios com a natureza.

E foi bom! Começamos com "Nesta Rua", passando pela politicamente incorreta "Atirei o pau no gato", "Rondó do Capitão - Bandeira" "O pato e a Casa, ambas de Vinicius", "Gramática e Trilhares, do Palavra Cantada" e "Tassy, na versão de Kleiton e Kledir". Tudo no violão.


(imagem by Lúcia Rabello)

Inesquecível: abaixo, da esquerda para a direita, eu, Márcio, Lúcia, Isabel, Agda e a Professora Doutora Maria dos Prazeres Santos Mendes

(se a Lúcia aparece na imagem, a imagem não é "By ela", vou perguntar o nome da colega e coloco aqui depois...)

Análise de... análise.

(Fernando Pessoa - reprodução)


Na sexta-feira, fiz uma prova de Literatura Portuguesa na faculdade, que versou, basicamente, em analisar (amplamente) o poema "Análise", de Fernando Pessoa. O título postado é exatamente o que coloquei na prova. Escrevi bastante (4 folhas!). A maior parte do texto que escrevi consistiu em aplicar conceitos apreendidos em textos teóricos que abordam a obra de Pessoa, como um todo, a partir de referência de textos do próprio poeta, como o Livro de Desassossego, por exemplo. Isso nem cabe nesse blog comentar. Importante é falar um pouquinho sobre um dos tesouros que todo poeta costuma buscar no final do arco-íris das palavras: o fecho de ouro. Basicamente, o fecho de ouro é o verso que finaliza um poema, seja ele rimado, metrificado, ou não... Um verso final deve conter, em si, todo o poema: confirmar as ideias dispostas, surpreender o interlocutor, negar tudo que foi dito, enfim, dizer ou mostrar algo que faça todo o poema valer a pena, valorizá-lo. Pois bem, o poema abaixo tem tudo isso... duas vezes. Dois fechos de ouro! Quando percebi isso, ao lê-lo, posto que já o conhecia, de passagem, apressadamente, abri um sorriso de orelha a orelha. Acho que os colegas de turma, se é que perceberam isso, ficaram intrigados: "O Sérgio está precisando de férias, com urgência!" A prova não era simples.

Sabe porque percebi isso? Porque contei os versos,... são quinze. Soneto tem quatorze! Pensei: "Vou contar outra vez. Quinze! Pérai! Quatorze estão em versos de 10 sílabas poéticas, igual aos sonetos clássicos. O último, décimo-quinto, está em versos alexandrinos... 12 sílabas. Porque será? Leio o poema novamente e percebo que se a leitura fosse interrompida no décimo-quarto verso, o sentido não seria prejudicado e o último verso seria um bom fecho de ouro. Leio o último verso... e ele também fecha magistralmente o poema todo.

Pessoa é um desses casos únicos em literatura. Passe sua vida inteira lendo o que ele escreveu e terá uma surpresa a cada vez que o fizer... mesmo em uma prova de Literatura Portuguesa das mais difíceis.


ANÁLISE


Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.


FERNANDO PESSOA