sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Há uma canção de amor em cada noite, de Octávio Venturelli

 



A começar do título, que, além da singularidade e poesia traz a métrica de um soneto heróico (um decassílabo com acentuação nas 6ª e 10ª sílabas tônicas), o livro "Há uma canção de amor em cada noite", de Otávio Venturelli, lançado em 1976, transborda em qualidade, sentimento e personalidade, aqui entendida como estilo, aliado a intenção poética, coerência e apurado senso estético.
 
Tenho esta obra-prima sempre à mão, desde 2002. Há onze anos, portanto. Só por curiosidade, visitei o site Estante Virtual e encontrei apenas dois exemplares do livro, catalogado em ambos os sebos como livro "raro". E é raro, mesmo, não só no sentido da dificuldade inerente em encontrá-lo para aquisição, mas, também, na acepção de ser um livro de poesia de qualidade, como poucos.
 
Octávio Venturelli é um caso que justifica o ditado "filho de peixe, peixinho é!". Seu pai, o poeta Venturelli Sobrinho, é o destinatário de uma das dedicatórias mais emocionantes que já li...
 
"...É para meu pai, cujos versos perfeitos e sonoros moldaram minha personalidade poética; cujas rimas vên encantando minha alma desde a minha meninice."
 
E continua...
 
"Graças a Deus eu tenho ainda muitos a quem dedicar, mas este livro é teu, meu pai, porque sempre foi teu...
                                                                         ...antes mesmo de ter sido escrito."
 
 
As orelhas do livro trazem palavras elogiosas e de reconhecimento de Nydia Iaggi Martins, Aparício Fernandes e J. G. de Araújo Jorge. O prefácio é de Milton Reis e a capa de Alexandre Venturelli.
 
À parte o sentimento de profunda amizade e respeito que nutro pelo Venturelli, pelo qual fui nomeado "cachorro" em cerimônia realizada na sua residência, na cidade de Nova Friburgo, com direito a biscoitos caninos no café da tarde, o que é uma distinção equivalente a ser chamado de amigo e tratado com honrarias por muitas outras pessoas, levei um bom tempo para gestar esta postagem, dada a importância e qualidade do poeta, além da verdadeira admiração que tenho pela poesia de Venturelli.
 
Basicamente, "Há um canção de amor em cada noite" é um livro de sonetos (com pinceladas de trovas e poesia clássica) e, neste particular, posta-se ombro a ombro com as melhores obras do gênero.
 
Octávio Venturelli domina, como ninguém, esta forma poética: é autor de um livro chamado "O soneto, seus encantos e segredos", de 2007, um guia de quem declara que, além das fontes consultadas (Bilac, Vasco de Castro Lima e seu pai, Venturelli Sobrinho), diz, ainda que uniu a estas fontes sua convivência "de quase 60 anos, com o Soneto, praticando-o e/ou procurando absorver a beleza, a técnica e a tessitura dos versos de inúmeros sonetistas."
 
Ora, posto isto, transcreverei um soneto que considero primoroso, por razões de  preferência pessoal, somente. O "recorte" analítico (para usar um termo próprio da teoria literária, que foi revivido em minha memória há poucos dias pelo trovador Pedro Mello) poderia destacar qualquer poema ou versos do livro com efeitos semelhantes aos que pretendo produzir e instigar no leitor. Então vamos a ele...
 
 
MINHA CHUVA
 
 
Dizem que, quando chove, a natureza,
como se fora alguém apaixonado,
está chorando o pranto da tristeza
que dos olhos dos céus é derramado.
 
Sinto na chuva o frio da incerteza,
a umidade da dor e o tom magoado
de canções que mantém, ainda presa,
a história dos momentos do passado.
 
A insônia faz a noite mais comprida,
e uma saudade vem mostrar-me o quanto
a chuva tem a cor da despedida...
 
A chuva é triste, se assemelha ao pranto;
e ultimamente tem chovido tanto,
na minha rua, e até na minha vida!
 
(Octávio Venturelli)
 
 
O soneto presta-se, em geral, ao aprofundamento de assuntos os mais variados: desde questões filosóficas e líricas, até humor, escárnio, homenagens etc. Deve haver, então, uma retórica própria, no soneto. Explico: a ideia principal, ou os pontos de vista do "eu lírico" devem ser apresentados ao leitor, confirmados, retomados e comprovados, no espaço estreito de 14 versos. Não é tarefa fácil. Mais ainda: o 14º verso deve conter a chamada "chave de ouro". O soneto tem inúmeras outras propriedades, que não cabem neste pequeno ensaio, mas o resumo acima serve ao "recorte".
 
Os aspecto principal que ressalto neste poema é aquilo que os teóricos chamam de "espaço e ambientação".
 
Venturelli, provavelmente, escreveu este soneto em um dia de chuva (ou de sol, mas o importante é notar que suas reflexões levam em conta o paralelismo que ele vai estabelecer entre a chuva e o pranto).
 
O primeiro verso utiliza o que em análise do discurso convencionou-se chamar de "discurso emprestado", um recurso que adiciona "status de veracidade" ao pensamento (no caso, dizem que quando chove a natureza pranteia...). Estabelecido o primeiro ponto comum entre o poeta e o leitor, que pactuam que a chuva é o pranto da natureza, Venturelli transforma a chuva, que acontece no espaço que existe fora de si, em sentimento interior. Isto refere o segundo quarteto, quando ele atribui à chuva seus sentimentos interiores, de frio, dor e mágoa, relativa às ocorrências do passado.
 
Então, no laço retórico e lírico, o leitor associa  a imagem da chuva aos sentimentos dispostos pelo autor.
 
O primeiro terceto, então, reúne os dois quartetos, reforçando a ideia inicial e provando-a, pelo relato de uma noite de insônia, chuvosa, em que o poeta percebe que a chuva tem a cor (apelo à sensação ocular, chamamento aos sentidos) da despedida (associada à dor, mágoa e, principalmente, à saudade).
 
No segundo terceto, então, o "eu lírico" constata que "a chuva é triste" e semelhante ao pranto, retomando a ideia do espaço exterior, quando diz que "ultimamente tem chovido tanto", como uma pré-apoteose, para o derradeiro verso (chave de ouro): "na minha rua, e até na minha vida!"

Percebe, então, leitor, porque o título do soneto é "MINHA CHUVA"? Pelo simples fato de que a chuva da qual ele fala não é aquela exterior, é a interior: a tristeza, o pranto, a dor e a mágoa de uma despedida. Uma chuva, um pranto, que chove e chora "por dentro".
 
Por mais livros que existam sobre as técnicas de elaboração de sonetos, um soneto de Venturelli equivale a uma escola de poesia.
 
O mais provável é que Octávio Venturelli não tenha pensado em nada do que eu disse quando escreveu o poema. Mas, como ele mesmo afirma, 60 anos de soneto é tempo bastante para que a hemoglobina da inspiração circule em cada célula do poeta e tudo que ele diga ganhe status de verdade, porque como ele mesmo já falou, os poetas têm "fé pública universal"!
 
A benção meu mestre, amigo e dono do canil, Octávio Venturelli!
 



2 comentários:

Pedro Ornellas disse...

Caro Sérgio, não há nada a acrescentar à análise que você fez, ao dissecar mais essa obra prima do grande Otávio Venturelli. Só me resta concordar, bater palmas ao poeta e agradecer a você por trazer a lume essas relíquias que deveriam estar muito mais em evidência se houvesse interesse dos que nos governam em preservar nossos bons valores.

Sérgio Ferreira da Silva ou Sergílio da Uspecéia disse...

Venturelli era pra figurar nos livros didáticos. Só não digo cair no vestibular, porque aí os vestibulandos não iriam gostar dele! hehehehe